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  • Matheus Mans

Crítica: 'Os Arrependidos' é filme cansativo, mas necessário sobre Ditadura


A Ditadura é uma sombra. Está sempre à espreita, apenas esperando que alguns adoradores a elogiem, e diminuam os efeitos que ela teve sobre as pessoas, para ressurgir poderosa. Por isso, e pelo atual momento em que vivemos, que é tão importante falar sobre a Ditadura Militar no Brasil, assim como seus atos nefastos que devastaram famílias e apagaram as suas memórias.


Dirigido por Ricardo Calil (Cine Marrocos) e Armando Antenore, Os Arrependidos busca justamente resgatar o sofrimento dessa época. Por meio de depoimentos potentes, e muitas imagens de arquivo, o filme fala sobre guerrilheiros presos que vieram a público renegar a luta armada e elogiar o regime. Tais retratações, rapidamente, viraram novas prática de Estado.


Afinal, o regime passou a torturar opositores para que fizessem o mea-culpa. Até 1975, cerca de quarenta presos participaram dos “arrependimentos”, como ficaram conhecidos na época.


Dessa forma, Os Arrependidos faz um trabalho importante, e até então inédito, sobre o que aconteceu nos bastidores dessas histórias de "arrependimento", assim como busca compreender melhor como os militares agiam nas sombras para provocar os tais arrependimentos. São histórias fortes, com detalhes de tortura, indo fundo no porão da Ditadura.

Sem dúvidas, o material em mãos de Calil e Antenore é uma preciosidade histórica. Eles conseguiram não apenas os depoimentos dessas pessoas que passaram por verdadeiras provações, como também constrói uma teia de acontecimentos e suas consequências sobre os métodos do governo na época para provocar os "arrependimentos". É um material contundente.


No entanto, o tratamento narrativo da história não acompanha a força dos fatos. A estrutura é toda muito óbvia, muito banal. Ouvimos alguns depoimentos (todos eles interessantíssimos, vale dizer), vemos um punhado de entrevistas de arquivo e, entrecortando tudo, propagandas governamentais daquela época tentando promover um nacionalismo exacerbado no Brasil.


Não há, assim, o vigor estético e de roteiro visto ano passado, também no festival É Tudo Verdade, de Libelu. Essa estrutura banal, que quase permite ao público adivinhar o que vem a seguir, cansa. O filme rapidamente cai na mesmice. E apenas alguns depoimentos mais marcantes, como o da esposa de um ex-guerrilheiro, atiçam de novo a curiosidade do público.


Uma pena, já que havia tanto a ser compreendido dessa narrativa -- talvez um filme mais nos moldes do Libelu, com os entrevistados falando e mostrando suas contradições hoje em dia, fosse mais interessante. Os Arrependidos, infelizmente, é apenas mais um filme na multidão, se tornando rapidamente esquecível. A história permanece, claro. Mas o longa poderia ir além.

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