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  • Matheus Mans

Crítica: 'Passagem Secreta' é filme fora de tom que não encontra seu público


A gênese de Passagem Secreta, novo filme de Rodrigo Grota que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 11, é uma aventura juvenil. Isso não tem volta. Afinal, o longa-metragem conta a história de Alice, uma jovem que é enviada a outra cidade para morar com o tio por conta de problemas em casa. Lá, ela acaba fazendo novas amizades e, ao mesmo tempo, descobre uma espécie de portal mágico — a tal passagem secreta do título — em um parque de diversões.


Com uma pegada de nostalgia noventista, como Stranger Things e afins, o começo do filme tem seu lado interessante. Grota, que apresentou boa direção em Leste Oeste, cria bem essa ambientação do passado com uma pegada nacional — não chega a ter o apelo de Califórnia, só para ficarmos em outro filme nostálgico, mas chega perto. O posicionamento do filme em outra década não tem apenas um aspecto popularesco, mas também serve à narrativa e personagens.


Além disso, o elenco mirim está bem. Luiza Quinteiro (Pequenos Delitos) está bem como Alice, com toda a complexidade emocional de sua personagem, enquanto os novos amigos possuem menos naturalidade na atuação — é algo que parece propositadamente forçado, talvez para cativar o público mais jovem com um didatismo cênico. Ainda assim, nessa união de boa ambientação com atuações interessantes, Passagem Secreta começa até que em boa forma.

No entanto, logo o roteiro de Roberta Takamatsu põe tudo a perder, junto com uma direção de Grota que não se decide. Passagem Secreta, afinal, é um filme juvenil em sua essência, como falamos no começo do texto. Há atuações mais puxadas para o didatismo, uma história aventuresca e coisas do tipo. Só que, quase sem explicação, a narrativa embarca em uma vibe que não combina. Parece uma mistura de David Lynch com uma aventura infanto-juvenil.


Não faz sentido. Com o personagem do tio sofrendo uma transformação brusca e inexplicável, além da presença exagerada de um vilão interpretado por Arrigo Barnabé, Passagem Secreta logo vai perdendo aquele bom começo. Não dá para entender para qual público Grota fez esse longa-metragem. Crianças vão achar bizarro demais, adolescentes vão se incomodar com a lentidão e adultos devem achar a história infantil demais, puxada para o caricaturesco.


No final, ainda por cima, Grota abraça uma história de doppelgänger que só complica ainda mais as coisas. Uma pena. Afinal, Passagem Secreta é um sopro de originalidade em um gênero pouquíssimo explorado no Brasil e que poderia, aqui, mostrar que há vida para além dos filmes de D.P.A.: Detetives do Prédio Azul. Talvez um pouquinho mais de coesão e foco, sem abraçar exageradamente o bizarro e sobrenatural, poderia ter feito desse um dos mais originais do ano.


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