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  • Matheus Mans

Crítica: 'Pig' já é um dos grandes filmes de 2022 e da carreira de Nicolas Cage


Que espetáculo denso, sombrio e dramático é Pig, longa-metragem estrelado por Nicolas Cage e que chegou ao catálogo do Telecine nesta sexta-feira, 7. Dirigido pelo estreante em longas Michael Sarnoski, que também assina o roteiro ao lado de Vanessa Block, o filme conta a história de Rob (Cage), um homem solitário que vive apenas com a companhia de sua porca caçando trufas, iguaria apreciada na gastronomia. Só que toda sua vida muda de uma hora para outra.


A porca é sequestrada e Rob, desesperado, pede ajuda para um cliente endinheirado (Alex Wolff) para encontrar a porca caçadora de trufas. É uma premissa que, propositadamente, lembra a franquia John Wick -- um homem, conectado com seu animal e, por causa dele, sai por aí querendo vingança. Nós, como espectadores, logo de cara esperamos que Nicolas Cage se porte como Keanu Reeves e saia por aí em busca de sangue, de vingança violenta e cabeças rolando.


Mas não tem nada disso. Sarnoski, de maneira mais do que acertada, reverte a noção básica que temos desses filmes -- assim como The Green Knight mexeu com a ideia que temos de contos de fadas e de cavaleiros medievais. Mais do que pancadaria, Rob mexe com as emoções dos seus rivais. Neste ponto, não vou entrar em mais detalhes: há passagens envolvendo memória gustativa, culinária e afins. Mas, para evitar spoilers que estragam a experiência, ficamos assim.

Nicolas Cage, em todo esse caminho, está absolutamente magnético. Lembrando um pouco das suas atuações em filmes mais maduros, como Joe, A Cor que Caiu do Espaço e Mandy, ele entrega um personagem que consegue transmitir seus sentimentos, emoções e sua herança só pelo olhar. É uma atuação completa que, convenhamos, merecia muito ganhar um espacinho no Oscar: até o momento, janeiro de 2022, não consigo lembrar de uma atuação mais potente.


Por fim, fica uma mensagem potente sobre luto, superação e solidão. Pig, brincando com o cinema que estamos vendo nos últimos tempos, mexe com as emoções do espectador e sabe como conduzir a história. Michael Sarnoski, sem dúvida alguma, entendeu como é o processo de luto e como as coisas mudam de uma pessoa para a outra. O personagem de Wolff, ainda que um pouco chato demais, comprova isso: cada um encara a morte e a vida de uma maneira.


Oras, quando o único vínculo de John Wick é cortado com sua esposa (o cachorrinho, morto por criminosos), violência é a reposta para o personagem de Keanu Reeves. Já aqui, a resposta é memória, afeto, novos laços emocionais. Rob se entende e, principalmente, compreende que deve voltar ao processo de luto após o porco desaparecer. É algo muito forte, muito verdadeiro. Quando nosso luto é interrompido, não matamos pessoas por aí. Nós choramos, sofremos.


O ano mal começou e Pig já é um dos grandes filmes de 2022 -- que, obviamente, foi lançado no mundo todo em 2021, mas chegou só agora por aqui. Esqueça aquelas bombas de Nicolas Cage nos últimos anos. Esta produção, madura, competente e muito correta, é um frescor em um momento em que o cinema está cada vez mais chato, comercial, banal. Pig é um acontecimento. Um filme doloroso, duro? Sem dúvidas. Mas também sobre redescoberta do que é, de fato, viver.


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