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  • Foto do escritorMatheus Mans

Crítica: 'Planeta dos Macacos: O Reinado' questiona caminho das lendas e mitos



A trilogia de Matt Reeves que reviveu a franquia de Planeta dos Macacos nos cinemas foi um marco: não só teve consideráveis avanços técnicos, mas também acertou em cheio com uma história potente sobre a guerra entre símios e humanos, com César (Andy Serkis) à frente da luta. Como continuar essa história, honrando todo legado passado?


São essas respostas, entre o certo e o errado, que moldam o novo Planeta dos Macacos: O Reinado, quarto filme da nova franquia e que chega aos cinemas nesta quinta-feira, 9 de maio. Dirigido por Wes Ball (dos filmes de Maze Runner), o longa-metragem dá um salto no tempo. César está morto há décadas; os humanos, enfim subjugados.


O protagonista agora é Noa (Owen Teague, em captura de movimento), um jovem macaco que vê seu clã ser escravizado após um erro de cálculo que faz com que outros símios, rivais de sua tribo, encontram o refúgio antes intocado. É aí que começa uma trama de vingança, com Noa tentando reencontrar familiares e amigos.

Engana-se, porém, quem pensa que Planeta dos Macacos: O Reinado é mais um filme sobre busca de vingança. Ainda que este seja um elemento importante na jornada de Noa, não é a principal discussão na mesa. Ao dar esse salto no tempo, com César se tornando quase uma figura mitológica, o roteiro de Josh Friedman (Avatar: O Caminho da Água) está bem mais interessado em compreender como os legados se comportam ao longo do tempo da nossa História.

Como César é visto hoje? Como é reimaginado? Como seus atos ainda reverberam? Enquanto os outros três filmes estabeleceram um universo que falou muito sobre preconceito e diferenças, este quarto capítulo é certeiro ao provocar o espectador a entender, mesmo sem respostas claras, como ações geram outras ações que nem sempre são desejadas. Poderia ser até um aprendiz de Efeito Borboleta, mas com mais discussões intelectuais e sociológicas.


É interessante notar, por exemplo, como estamos vendo o florescer de uma nação após quebrar a força dos humanos, com toda sua tecnologia e poderio militar. Nesta revolução, criam-se mitos. Desses mitos, nascem as lendas. E, com o passar do tempo, florescem ainda mais histórias — que são reinterpretadas em diferentes realidades e verdades.



Até mesmo a relação com humanos remanescentes (os tais Alfas denominados por César) ganham nova leitura aqui. De um lado, um grupo vê esses humanos como uma possível e saudável parceria. Outros veem as pessoas ainda como inimigos e leem as ações de César como premonitórias dos perigos que essa “outra raça” pode causar aos símios mais puros e inteligentes. Nós, como humanos, no século XXI, já vimos muito essa história — que insiste em retornar.


Wes Ball, na direção, mistura essa interpretação antropológica sobre lendas e mitos com um filme de aventura bem azeitado. Não chega a ter o impacto visual da franquia original (em vários momentos, reverberava em minha mente como a atuação de Serkis (de O Senhor dos Anéis) conseguia ser realmente mais impactante e, claro, poderosa.


Ainda assim, Teague (IT: A Coisa) se sai bem como esse jovem reinterpretando os passos de seus antepassados. Mas o destaque absoluto fica no colo de Kevin Durand (Abigail), o Proximus César, um personagem que foi descrito por Wes Ball “não exatamente como um vilão”. E realmente: ele é o vilão de Noa, mas é questionável se ele é o vilão para todos os símios que, agora, povoam a Terra. Afinal, ele vive por conta de uma interpretação da história. César queria aquilo?


Nós, como espectadores, basicamente estamos flanando por essa linha do tempo revivida por Matt Reeves, abrindo espaço para que o público compreenda como essa história nasceu, evoluiu e, quem sabe, como vai terminar, enfim.


Isso lembra, estranhamente, um game que nasceu como uma espécie de revolução, mas que não vingou: Spore, dos mesmos criadores de The Sims. A ideia era criar uma espécie alienígena desde seus primeiros passos, debaixo da água, até chegar na dominação espacial. Fica a sensação de que este é um Spore dos cinemas — e que deu muito certo.


Além disso, há todo o visual do filme: com menos humanos em cena (há apenas os competentes Lydia Peckham e William H. Macy), o filme se torna mais plástico e menos realista. Em muitos momentos, parecia cenas de trailers de videogames, tirando um pouco o peso da cena — por mais que muitas sequências tenham sido feitas com atores.


O fato é que Planeta dos Macacos: O Reinado se reafirma como aquilo que até mesmo grandes franquias dos cinemas, como O Senhor dos Anéis e Star Wars, não conseguiu até então: colocar o público em um espaço de observação poderoso, analisando os caminhos do desenvolvimento da humanidade — mesmo quando falamos de símios. É cedo para dizer que é uma franquia melhor do que esses citados, mas o caminho se torna cada vez mais luminoso. A ver.

 

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