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  • Matheus Mans

Crítica: 'Rodantes' é road movie existencial belo e cansativo


Antes de tudo, é preciso ressaltar: que belo trabalho de direção fez Leandro Lara em Rodantes. Estreante na direção de longas ficcionais, o mineiro surpreende com um comando consistente e criativo. É digno de nota, daqueles nomes que precisam ficar registrados em um caderninho mental para acompanharmos os futuros trabalhos. Tem consistência e paixão no que faz na tela.


Afinal, Lara está em cada canto de Rodantes. O longa-metragem, que acompanha três pessoas com vidas em caótico processo de mudança, é inspirada em anotações e observações que o cineasta fez em suas andanças por aí. Ou seja: os personagens interpretados muito bem por Caroline Abras, Jonathan Well e Félix Smith não são reais, mas inspirações do mundo ao redor.


A partir disso, praticamente acompanhamos Rodantes nos fazendo mergulhar num purgatório real, do Brasil contemporâneo, em que esse trio de personagens não sai do lugar. Tatiane, a personagem de Abras, recorre à prostituição não só para sobreviver, mas também para ter algo a se apegar. Well foge da própria sombra. E o haitiano, de Smith, tenta fincar suas raízes.

Nesse caldeirão de personagens extremamente reais, vamos conhecendo aos poucos os sentimentos e emoções que surgem. Afinal, Lara não entrega tudo de cara. Ele vai aos poucos, dando apenas sabores esporádicos do que aqueles personagens estão sentindo, sofrendo, passando. Tudo isso com uma experimentação narrativa curiosa, bem fragmentada.


Dessa maneira, o filme acaba acertando no sentimento que quer passar. O visual, ousado e provocativo, ajuda o diretor a alcançar esse nível num ritmo estético curioso e criativo.


O problema, contudo, está no roteiro escrito por Lucas Camargo de Barros (Ouça o Ciclone). Primeiramente, a tentativa de deixar as três histórias equivalentes falha antes mesmo de chegar na metade da história. Rapidamente, Rodantes vira um filme sobre Tatiana, enquanto os outros dois se tornam apêndices. Uma pena, já que tinha mais lenha para queimar na tela.


Além disso, a narrativa é um tanto rebuscada demais -- ainda que Leal alivie aqui e ali, com a direção ousada. Será que era o tom ideal para uma história tão interiorana? Parece que Rodantes não entra na realidade do que está contando, apesar da direção seguir outro caminho. Fica algo estranho. Ainda é um filme bom, interessante. Vale assistir. Mas ficam as ressalvas.


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