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  • Matheus Mans

Crítica: 'Seberg Contra Todos' traz história forte, mas quadrada


Dentro do avião, uma discussão entre comissários e Hakim Jamal (Anthony Mackie), líder dos Panteras Negras, chama a atenção de Jean Seberg (Kristen Stewart). A atriz, conhecida por seus papéis nos filmes Acossado e Santa Joana, se incomoda, se coloca, se faz presente. Oferece seu lugar aos Panteras e, ainda por cima, na saída do aeroporto, posa para fotos junto com Hakim.


É o início de uma nova fase na vida de Seberg, retratada na cinebiografia Seberg Contra Todos. Estreia desta quinta-feira, 5, o longa-metragem se propõe a mostrar o período mais contestador da estrela americana, quando se envolve romanticamente com Hakim e começa a sustentar financeiramente algumas alas internas do movimento negro que ganhou força nos anos 1970.


Dirigido por Benedict Andrews (do bom Una), Seberg Contra Todos não pode ser taxado de óbvio ou desinteressante. Assim como Judy, a história traz momentos pouco conhecidos de uma estrela de cinema mundial e, com isso, se faz importante. É interessante mergulhar no ativismo político de Seberg e, principalmente, na paranoia que cresce com a atriz durante o período.


Afinal, mais do que só se envolver com os Panteras e com Hakim, Jean Seberg também se torna alvo de uma investigação do FBI contra o partido, ancorada por Jack Solomon (Jack O'Connell).


Stewart, que vem crescendo na carreira com filmes desafiadores como Personal Shopper e Lizzie, sabe trazer todas as facetas da atriz em cena. Em sua personagem, é possível sentir toda a paranoia, todo o amor, todo o ativismo, todas as sensações que eclodem no mergulho dessa mulher, fragilizada pela vida, num ativismo político e racial. Stewart modula tudo muito bem.


Com isso, o filme cresce ainda mais em força e importância. Andrews, a partir dessa trama interessante, consegue nos apresentar um filme completo, melancólico e que desperta emoção. O espectador, mesmo que não conheça a trajetória de Seberg, quer saber mais sobre a atriz, assim como todas essas polêmicas que a cercaram. É uma história, afinal, ainda interessante.

No entanto, não dá pra dizer que a originalidade e a força que cercam a trama se repetem no formato de Seberg contra Todos. Indo na contramão do que foi visto em Una, em que Andrews trouxe à tona um assunto forte e controverso, ele parece ficar na zona de conforto. Não ousa, não se arrisca, não traz ousadia na forma de contar essa história. Tudo fica no quadrado.


Seberg contra Todos, assim, repete também uma falha de Judy -- além da semelhança de ambos serem uma história sobre estrelas em seus tempos decadentes. A trama começa, se desenvolve e termina num mesmo tom, num mesmo formato. É uma cinebiografia convencional, como já foram feitas aos montes. É uma estrutura quadrada e careta para uma história assim.


Afinal, pense na biografada: Seberg foi uma estrela de filmes históricos e marcantes; além disso, aqui se contam momentos ousados e polêmicos de sua vida. Pra que fazer um filme que não reflete essa ousadia da estrela? Pra que fazer um filme mais do mesmo? Como isso, em algum momento, vai honrar a memória de Seberg? Poderia ter ousado, ido muito além.


E isso acaba derrubando o filme como um todo. Na memória do espectador, vai ser mais um filme sobre mais uma biografada hollywoodiana. Por mais que a história seja interessante ou o elenco esteja bem, como Anthony Mackie, Vince Vaughn e Zazie Beetz, falta aquela sacada, aquele algo a mais, que torna o longa-metragem distinguível dentre tanta coisa nos cinemas.


É ruim? Longe disso. A história é interessante, a personagem é forte e o período retratado é inteligente. No entanto, também não é memorável ou sensacional. Falta mais criatividade para o filme ser algo além de uma boa biografia, um bom filme que rivalize em memória com a própria obra de Seberg. Daqui alguns anos, poucos vão se lembrar. E vai sumir no mar de cinebiografias.

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