• Matheus Mans e Bárbara Zago

Crítica: Sem sal, ‘Liga da Justiça’ deve agradar só os menos exigentes


Já faz algum tempo que a DC está se atropelando nos cinemas. Após o desastre de Batman & Robin na virada do milênio, a empresa demorou a acertar o tom, mas voltou a reinar com a trilogia de Nolan. Depois disso, no entanto, voltou a se perder e produziu bombas como Esquadrão Suicida e Batman vs. Superman, que desanimaram até os fãs mais fiéis. Mulher Maravilha veio para dar um novo fôlego e Liga da Justiça chega agora aos cinemas como o teste definitivo.

E o resultado, a meu ver, fica bem abaixo do esperado -- e do necessário. Claramente, após o fiasco do filme Batman vs. Superman e o sucesso da princesa Amazona, a DC resolveu mudar o tom de seus filmes. Liga da Justiça está bem menos sombrio que antecessores e se aproxima mais da leveza de Mulher Maravilha. É, novamente, uma tentativa de ter um público cativo e que se interesse pelas histórias. Porém, mais do que mudança de tom, o longa ficou mais simples.

E isso, para um filme como Liga da Justiça, não é positivo. De todos os personagens, só o Superman e a Mulher-Maravilha foram devidamente apresentados -- e Batman, de maneira torta, em Batman vs. Superman. O restante dos personagens conta com uma introdução fria e sem grandes atrativos. O Flash, por exemplo, ganha um pai encarcerado sem muita razão de ser e o Cyborg tem um dos desenvolvimentos de personagens mais confusos da DC, em toda sua história.

Além disso, a criação de conflito para o longa-metragem é risível. Um grande vilão renasce das cinzas e decide que vai conquistar o mundo, sem razão, e matar todas as pessoas. Os heróis, então, se juntam para deter o ser megalomaníaco e formam, pela primeira vez nas telonas, a Liga da Justiça. Pronto. Não há uma grande história, não há um grande ponto de emoção e tudo ali parece ser uma adaptação de Os Vingadores -- não é à toa que tem Joss Whedon no roteiro.

Até o vilão parece ser tirado da Marvel, de tão ruim que ele é. Além do CGI risível -- do qual nós iremos falar daqui a pouco --, ele não tem aprofundamento, não tem motivações para que o público o leve a sério. Ele parece um boneco repetindo frases de efeito o tempo todo e que cria alguns raios de luz espalhados pelo mundo. É tosco e lembra um pouco Quarteto Fantástico -- não o antigo, mas sim a nova releitura do quarteto de heróis da Marvel. Isso, definitivamente, não funcionou.

O filme conta com erros estruturais e técnico bobos, mas que atrapalham toda a absorção de conteúdo. Primeiro, as atuações: Ben Affleck está patético, beirando o cômico, de tão desanimado que está com seu personagem; Gal Gadot está bem, mas com alguns problemas de construção de personagem; Jason Momoa diverte como Jason Momoa.. quer dizer, como Aquaman; e Ezra Miller mostra estar extremamente forçado num papel que não tem nada a ver com seu estilo.

Liga da Justiça também não conta com cenas de ação épicas e que ficarão marcadas na mente -- como seria esperado de um filme como esse. Apenas a batalha com as Amazonas e um flashback de uma guerra animam. De resto, o CGI desesperador de Zack Snyder -- que deve ter algo contra cenários -- polui o visual e faz parecer que estamos dentro de um jogo de videogame. Snyder tem que aprender que cinema não é só efeitos especiais. Desse jeito, não dá.

O roteiro enfraquece o filme como um todo, impedindo que ele assuma seu tom épico. A volta do Superman, por exemplo, é boba e mal-aproveitada -- ainda que seja legal vê-lo enfrentar alguns personagens. Há, também, uma descaracterização da Mulher Maravilha. Enquanto ela se tornou um ícone feminista no filme solo, aqui ela é objetificada -- todos personagens se apaixonam por ela e, em vários momentos, ela precisa da ajuda de outros heróis para lutar.

Até Batman vs. Superman é invalidado. Afinal, a grande transformação do filme foi a morte do Homem de Aço e a apresentação da Mulher-Maravilha. O filme solo da heroína, porém, fez isso muito melhor e a morte do Superman foi revogada aqui. Depois disso, já pode jogar Batman vs. Superman no lixo. Aqui, ele só serve para uma ou duas piadas e nada mais.

A montagem do filme também é estranha demais. Claramente, há a mão de dois diretores ali e várias cenas estão picotadas para dar mais ritmo ao filme -- dizem que executivos da Warner mandaram editar o filme após ver um corte inassistível do filme de Snyder. Não há unidade. Além disso, há um excesso de piadas -- claramente fruto da direção de Whedon -- que funcionam em apenas 40% dos casos. A maioria, enquanto isso, quebra a narrativa e não leva a nada.

Surpreendentemente, as duas grandes surpresas são o Superman e o Aquaman. Quanto a este último, o grande acerto é a caracterização -- beberrão, quase um Jack Sparrow, cheio de tatuagens e um tanto quanto problemática. Fica a vontade de ver mais filmes com Jason Momoa como o personagem. E o Superman, mesmo aparecendo pouco, dá frescor para a trama: Henry Cavill está mais à vontade e apostaram em um visual mais clássico do herói. Agradou.

O resultado final, porém, é amargo. Liga da Justiça é um filme que até pode divertir se você não for tão exigente e fechar os olhos para todos esses problemas que apontamos. No entanto, a história está plastificada e sem o senso de estar vendo uma coisa épica -- não arrepiei nem quando o Superman voltou. Não é, definitivamente, a DC que conhecemos. A esperança é que admitam isso e, no final, construam um universo mais interessante. Por enquanto, ainda não há esperanças.

#Crítica #DC #Franquia #Cinema #Filme