• Matheus Mans

Crítica: 'Shazam!' é filme simples, mas divertido


Quando começou a construir seu próprio universo compartilhado, a DC errou. Começou com os fracos Esquadrão Suicida, Batman vs. Superman e Liga da Justiça -- este último, ao menos, recuperou um pouco da qualidade que desapareceu nas outras duas produções. Mas, mesmo assim, foi esculachado por crítica e público. Não deu outra: logo o estúdio começou a corrigir o rumo de suas produções e a alinhar as histórias que estava contando. O primeiro acerto veio com Mulher-Maravilha, que criou bem o mundo da amazona, apesar do excesso de CGI. Depois Aquaman, filme brega, mas inusitado. E agora pavimenta de vez seu caminho com o simples, mas divertidíssimo Shazam!.

Quem vê os trailers deste novo filme da DC, que chega aos cinemas brasileiros na quinta-feira, 4, imagina que vai encontrar um humor escrachado, ao estilo Deadpool, onde a piada é a ordem da casa. Mas não é nada disso. Shazam! é um filme genuinamente engraçado, mas que segue mais pra seara do humor familiar e ingênuo, por vezes infantil. Não há piadas escabrosas, absurdas, adultas. Tudo transita em torna da história do adolescente órfão Billy (Asher Angel), que passa a ter poderes especiais que o transformam num super-herói (Zachary Levi) com rosto e corpo de adulto.

O grande negócio, porém, é que ele continua sendo Billy, o rapaz que frequenta a escola, mora num lar de acolhimento e tem o garotinho Freddy (Jack Dylan Grazer) como seu melhor amigo. O entusiasmo do protagonista com seus poderes é algo extremamente palatável, real, infantil. O deslumbramento, mesmo quando o vilão Dr. Silvana (Mark Strong) entra em cena, é divertido e contagiante. Daí que deriva esse tom ingênuo, quase inócuo, que rege toda a produção. Lembra do humor de It: A Coisa? É algo bem parecido, com o diferencial que aqui não há palavrões. Tudo é controlado, calibrado.

E Shazam!, como um todo, segue essa fórmula e deixa que a ingenuidade tome sua essência. O filme assume seu ar "menor" dentro do universo da DC e não tenta alcançar grandes proporções. O loga é simples e quase não sai dessa zona de experimentação do protagonista. A relação de Levi (Thor: Ragnarok) e Grazer (IT: A Coisa) ajuda a dar combustível na história que está sendo contada e a fazer com que o espectador enfrente as exageradas 2h12 de duração. Afinal, com tanto tempo, o filme começa a mostrar demais a sua simplicidade inerente e a ficar exposto. A dupla salva de um final ruim.

Mas claro, nem tudo é família. Apesar do humor infantil, o longa-metragem passa longe de ser algo a ser exibido na Sessão da Tarde. O vilão Dr. Silvana é extremamente cruel e, com ele, surgem algumas cenas realmente pesadas -- em uma delas, é possível ver rapidamente uma pessoa sendo decapitada com sangue jorrando. E o que era para ser totalmente contraditório, acaba somando ao filme no geral. O humor infantil ameniza, enquanto a brutalidade de Silvana faz com que o público adulto não perca a atenção do que está sendo exibido. As crianças tomam conta do filme, mas há espaço pra ação.

Falando no Dr. Silvana, vale destacar a boa atuação de Mark Strong. Com um tom parecido com o que foi visto em Kingsman, o ator britânico consegue passar a insegurança, a inveja e a ânsia por poder de seu personagem. Não é um vilão icônico como outros da DC, mas cria bons momentos em tela. E além dele, e dos dois protagonistas já citados, não há grandes interpretações. Só Djimon Hounsou (Diamante de Sangue) chama a atenção, mas a participação é muito pequena. Uma ponta, apenas.

O diretor David F. Sandberg (Anabelle 2) claramente não teve espaço para colocar sua assinatura ali -- mesmo quando há espaço para isso, não há cenas sombrias ou aterrorizantes. Ele apenas seguiu o roteiro, escrito a quatro mãos por Henry Gayden (Terra para Echo) e Darren Lemke (Goosebumps). Não é algo ruim, mas fica muito evidente como foi operacional a filmagem. Um pouco de criatividade poderia ter feito com que a simplicidade não fosse tão evidente e criado momentos marcantes.

Mas assim, com essa mistura de humor ingênuo e trama simples, Shazam! parece encontrar um espaço nesse abarrotado mundo dos super-heróis. O filme está longe de ter momentos marcantes, mas traz bom entretenimento, boas cenas e boas piadas, com destaque para uma envolvendo um cajado e outra que transcorre ao som de Don't Stop Me Now. É um filme que se orgulha de ser simples, redondo, correto. Algumas pessoas podem se decepcionar com o excesso de simplicidade, que fica evidente na batalha final, por exemplo. De fato, incomoda. Mas ir além disso seria fugir do que é Shazam!.

Há muito espaço para ser criado e explorado, ainda mais com esse trio extremamente carismático que nasceu inesperadamente -- Jason Momoa, Gal Gadot e Zachary Levi, quem diria, foram além de Ben Affleck e Ezra Miller. Agora é torcer para que Shazam! ganhe novos contornos, novas experimentações e que vá além, principalmente com o Adão Negro de Dwayne Johson. A DC, afinal, corrigiu seu rumo. O exagero de CGI de Mulher-Maravilha sumiu, as cenas desencontradas de Esquadrão ficaram para trás e a falta de tom parou em Batman vs. Superman e Liga da Justiça. O nasce dessa mudança é esse filme simples, mas inspirado e divertido. Quem sabe não é esse, de fato, o caminho a ser seguido pela DC? Quem achou que o estúdio estava fora do jogo, sem dúvidas, pode ir preparando terreno. Há mais por vir.

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