Buscar
  • Matheus Mans

Crítica: 'Sibéria' é filme sensorial e pretensioso de Abel Ferrara


Foi há alguns anos que Abel Ferrara anunciou que faria um financiamento coletivo para viabilizar um filme inspirado no Livro Vermelho, obra máxima do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Era um projeto maluco, já que o tal livro não tem enredo ou nada concreto. São ideias, reflexões e pensamos do pai da psicologia analítica jogada em belíssimas páginas.


Agora, o filme finalmente ganha vida em Sibéria, longa-metragem em exibição na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Estrelado novamente por Willem Dafoe, parceiro de Ferrara nos bons Tommaso e Pasolini, o longa-metragem tem o mérito de, assim como o livro de Jung, não ter trama. É pura essência, do começo ao fim, como um filme de Malick.


Afinal, o longa-metragem se propõe a ser um mergulho nos sonhos, memórias, aflições e subconsciente de seu protagonista (Dafoe). Ele vive em tormento e, aqui, Ferrara busca devastar a audiência ao colocar esses filmes de encontro com anseios também de quem está sentado, de frente para uma TV, conferindo a história. Sibéria, enfim, busca ser um diálogo entre as partes.

No entanto, rapidamente, o filme mostra que não consegue se sustentar. Ainda que Ferrara seja audacioso e criativo em sua abordagem, o longa-metragem não vai além de ideias jogadas ao vento em um exercício curioso que beira a presunção. Não há encontros, aqui, apenas desencontros entre um protagonista sem qualquer profundidade e um ambiente opressor.


A aposta alta de Ferrara na abstração, com toques rebuscados e fortes de psicanálise, acaba mais repelindo do que criando alguma força fílmica. Faltou, para o público, entender mais aquele personagem. Oras, é como se você encontrasse um desconhecido na rua e ele te contasse sonhos, medos, memória. Até pode ser um exercício curioso, mas dificilmente será interessante.


O cineasta, infelizmente, exagerou na abstração. Alguns podem gostar desse vazio dentro do vazio do personagem e, quem sabe, se encontrar -- Ferrara tem esse poder cinematográfico, afinal. No entanto, acho difícil que a grande massa que vá conferir esse filme encontre algo que realmente desperte um sentimento, uma emoção, qualquer coisa. Faltou. E faltou muito.

#Crítica #Cinema #Filme #Drama #Mostra2020 #MostraInternacionaldeCinema #CoberturaEspecial