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  • Matheus Mans

Crítica: 'Sibyl' é filme criativo e ousado, mas que se perde na história


Foi em 1976 que chegou aos cinemas, com Sally Field no papel principal, o impactante Sybil. O telefilme, que acabou ganhando status de cult ao longo do tempo, surpreendeu na época ao abordar a história de uma jovem mulher que desenvolveu várias personalidades como mecanismo de defesa para os abusos que sofria. Um assunto, até então, pouco abordado.


Agora, o nome do filme retorna na produção francesa Sibyl -- isso mesmo, com Y trocado com o I. Fica evidente, para quem assistiu ao longa dos anos 1970, que essa similaridade de nomes não é à toa. Ainda que não seja um remake ou algo do tipo, o filme também fala de personalidades, de doppelgänger e outras coisas do tipo, mas sem se aprofundar nessa questão.


Afinal, a trama acompanha a história de uma psicóloga (Virginie Efira) que está abandonando a profissão para, enfim, abraçar a escrita. No entanto, durante esse processo de desconstrução e reconstrução da carreira, Sibyl acaba aceitando uma nova paciente, Margot (Adèle Exarchopoulos). Ela é uma atriz jovem, cheia de paixão, grávida de um ator, marido da diretora.


Durante esse processo de acompanhamento psicológico, Sibyl se enxerga na paciente. Ela se vê nas mesmas questões e, acima de tudo, quer tomar algumas decisões que Margot toma. Não é, assim, um caso de múltiplas personalidades como na produção americana dos anos 1970. Mas é, de fato, um espelho. Um caso em que a protagonista se enxerga e deseja ter outra persona.

A partir daí, acompanhamos essa obsessão, esse entrelaçamento entre Sibyl e Margot. Duas personagens quase opostas em intensidade e que se encontram no vazio de suas vidas. É forte, é impactante esse encontro, ainda mais com as atuações potentes de Efira (Na Cama com Victoria) e Adèle (Azul é a Cor mais Quente). As duas se complementam totalmente em cena.


Uma pena, porém, que o roteiro de Arthur Harari e de Justine Triet, que também assina a direção, se perca mais para o final. Ainda que tenha algumas cenas realmente boas, como a do cinema ou a sequência de bastidores de um filme em um barco, as coisas saem um pouco do prumo. Ficam corridas. Parece que Triet, na direção, apressa demais algumas resoluções.


Oras, há uma questão envolvendo vício em álcool, por exemplo, que é tratada perpendicularmente no começo e aprofundada de verdade faltando menos de 10 minutos para os créditos finais. Há também cortes temporais estranhos que, inseridos sem muito contexto, acabam tornando o filme uma bagunça cansativa em determinado momento de projeção.


Há, sim, um sopro de força e originalidade em Sibyl -- é, acredito, uma das produções mais interessantes de 2020, apesar de não ser das melhores. Se o roteiro tivesse seguido uma narrativa ainda mais desafiadora, como Swimming Pool, ou, então, desenvolvido melhor essa obsessão como em Persona, seria um filmaço. Mas, do jeito que ficou, ainda vale a assistida.


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