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  • Matheus Mans

Crítica: Singelo e ousado, '17 Quadras' mostra a vida como ela é


Boyhood foi um filme que deixou muita gente de boca aberta. Não tanto por conta da história ou da boa produção, mas sim pelos seus bastidores: Richard Linklater gravou o filme por 12 anos, com os mesmos atores e mostrando os efeitos da vida naquela família fictícia. E agora, o ótimo 17 Quadras, de Davy Rothbart, vai além. Mostra uma família ao longo de 20 anos de gravações.


E nada de roteiro, diálogos premeditados e coisas do tipo. Rothbart acompanhou a família Sanford de maneira crua, direta. É um documentário mostrando uma história real, com pessoas reais, e como elas se transformaram ao longo de duas décadas. E que história! Essa família, que mora a 17 quadras da Casa Branca, precisa lidar com pobreza, drogas, violência, abusos.


É um rotina dolorosa, num espectro totalmente diferente da classe média de Boyhood. Vemos a América real, que não são mostradas nas telonas, em imagens realmente arrebatadoras. Que doloroso e que ansiedade é ver as mudanças de tempo, geralmente com grandes saltos temporais, e que trazem mudanças profundas nos Sanford. Dá medo de saber o que aconteceu.

E essa realidade, além dessa constante transformação na história filmada por Rothbart, acerta em cheio na emoção do espectador. Afinal, não são atores buscando alguma essência dos Estados Unidos. São pessoas vivendo suas vidas e que, ao longo de tanto tempo, dão licença ao mundo para entendermos como vivem à margem, mesmo tão pertos do centro do poder global.


Uma pena, porém, que Rothbart cometa um erro muito parecido com Linklater: o excesso. Ainda que tenha menos de 1h30, esse filme exibido na 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, há momentos de excesso. Há algumas sobras, alguns momentos que não se encaixam. Talvez seja resultado das mais de 1 mil horas filmadas -- Boyhood rodou apenas 39 dias.


Ao mesmo tempo, faltou uma inventividade ao diretor em traçar mais paralelos com a proximidade do poder de Washington, além de fazer mais referências às diferentes faces da vida dos Estados Unidos. Rothbart poderia ter sido um pouco mais ousado, um pouco mais criativo. Acabou ficando engessado demais ao material que coletou nesses 20 anos, sem nada a mais.


Mas tudo bem. 17 Quadras continua sendo um retrato potente e moderno, que vai além das obviedades quando falamos em famílias americanas. Cadê o american way of life, aqui? Vemos esse diferente olhar, que não poderia ter sido mais real, mais potente e mais emocionante. Impacta o público, enquanto nos envolvemos com essas pessoas que vivem, existem, resistem.

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