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  • Matheus Mans

Crítica: 'Sob as Escadas de Paris' apela para o problemático "branco salvador"


Se tem um clichê do cinema que não pode mais ser aceito sem questionamentos é o do "branco salvador" ajudando, geralmente, pessoas negras em situações dificílimas. Esse branco até pode estar com algum problema, mas de alguma forma está numa situação social superior à quem é auxiliado. É um anjo. E é justamente nesse problema que recai o fraco Sob as Escadas de Paris.


Dirigido por Claus Drexel (de Affaire de famille), o longa-metragem conta a história de Christine (Catherine Frot), uma moradora de rua solitária que viu seu caminho se cruzar com o do pequeno Suli (Mahamadou Yaffa) -- um rapazinho negro, imigrante, que se perdeu da mãe nas ruas de Paris e agora está sozinho por lá. A partir daí, começa a busca desenfreada pela mãe.


É, assim, o mesmo problema visto em longas como Histórias Cruzadas, Um Sonho Possível e, mais recentemente, o terrível O Mediador. Ainda que a protagonista também esteja numa situação complicada, vivendo nas ruas e sobrevivendo por meio de esmolas, o roteiro do próprio Drexel e de Olivier Brunhes acaba achando um personagem para ser ajudado por ela.


Além disso, vale dizer, a própria personagem de Frot acaba sendo desrespeitada. Oras, ela é uma mulher vivendo no limite, numa situação de escassez extrema e em solidão profunda. Uma personagem como essa poderia render um drama de profundidade ímpar, contrastando com o cenário de Paris e, principalmente, desenvolvendo a identidade e a personalidade dessa mulher.


No entanto, acaba sendo apenas mais um buddy movie qualquer. Não há cuidado na mensagem, não evita esse clichê terrível -- até mesmo um pouco tóxico -- do cinema de Hollywood e da Europa. Sob as Escadas de Paris tem um ponto positivo aqui e acolá, como a atuação correta de Frot, mas não sai disso. Decepção, mostrando que algumas histórias não merecem mais espaço.


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