• Matheus Mans

Crítica: 'Temporada' é drama atual, mas raso em desenvolvimento


A mineira Juliana (Grace Passô) se muda para Itaúna, no interior do estado, após passar em um concurso público. Sua função passa a ser visitar casas da região, junto com um grupo de outros funcionários, para inspecionar áreas sem proteção e identificar possíveis focos do mosquito da dengue. Além da nova função, porém, ela passa a ter uma nova vida com amigos, uma maior autoestima e desesperança com o seu passado. Esta é a trama geral de Temporada, filme da Mostra e vencedor do Festival de Brasília.

A direção, do ótimo André Novais Oliveira (Quintal e Ela Volta na Quinta), apresenta um tom já conhecido na carreira do cineasta. As pessoas são retratadas de maneira verdadeira, muito física. O diretor brinca com os corpos, com situações, com movimento. Além disso, faz com que atores e não-atores, como também é de costume em sua filmografia, brinquem com o texto e se divirtam. Há ali, sim, uma linha narrativa central, mas o improviso e o espaço para a criação estão sempre abertos por Novais Oliveira.

Isso acaba rendendo algumas atuações inspiradíssimas. Hélio Ricardo e Rejane Faria, por exemplo, conseguem conquistar certo espaço em cena, mesmo com atenção reduzida da câmera. Vão bem. Mas quem brilha mesmo é a dupla Grace Passô (atriz profissional e que já chamou a atenção no ótimo Praça Paris) e Russo Apr. Ambos possuem um magnetismo que torna difícil a tarefa de se desgrudar da tela. São fortes, intensos, reais. Merecidos os prêmios que receberam no último Festival de Brasília.

O desenvolvimento da história também acaba beneficiando apenas um lado: Juliana, a personagem de Grace. Ela é a única de todo o filme -- além de Russo, talvez -- que possui camadas bem desenvolvidas, que vão se aglutinando ao longo da narrativa. É algo que Arábia, por exemplo, também fez recentemente. A diferença com Temporada, e que acaba criando um ponto negativo na trama, é que há personagens marginais que necessitam, de alguma maneira, de desenvolvimento e camadas para suportar o filme.

Arábia, como citado, é um filme que se resolve bem apenas com seu protagonista. Temporada, não. Juliana é uma pessoa que está se redescobrindo, compreendendo sua essência e a relação com as pessoas ao seu redor. Em determinado ponto do filme, ela mesma diz que "não tinha amigos antes" e que está se transformando. Faltam diálogos que sustentem isso e amplifiquem o poder do filme. Tudo ali, afinal, parece vindo de uma mesma variação, um tecla de uma nota só. Pena.

Mas é inegável que Temporada é um bom filme. Raso em alguns aspectos, principalmente em seu desenvolvimento, mas muito bom em atuações, na direção certeira de André Novais Oliveira e em aspectos técnicos centrais, como a trilha sonora esporádica e muito gostosa de ouvir. Além, é claro, de algumas alfinetadas no roteiro e críticas sociais bem pontuadas. É um filme para ver e sentir. E, se ignorar esse problemas pontuados, se torna experiência profunda e pessoal no interior de Minas.

* Filme assistido durante a cobertura especial da 42ª Mostra Internacional de Cinema.

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