• Matheus Mans

Crítica: 'Thunder Road' é drama independente forte, mas banal


O ator Jim Cummings (The Handmaid's Tale) surpreendeu em 2016 ao comandar um forte e contundente curta-metragem, de 13 minutos, sobre um homem enfrentando a morte de sua mãe. Dois anos depois, ele volta à trama de Thunder Road, no formato de longa, para se aprofundar ainda mais na história do protagonista e tentar se provar como realizador. O resultado é um filme intenso e interessante, mas muito banal.

A trama acompanha a vida do policial Jim Arnaud (Cummings), um homem que está atormentado pela solidão. Afinal, sua mãe morreu, a esposa o deixou e sua filha, a pequena Crystal (Kendal Farr), não quer mais saber do patriarca. O resultado, é claro, é um forte sentimento de abandono que acaba afetando seu desempenho no trabalho, onde precisa sempre manter a calma, e a relação com colegas e amigos mais íntimos.

A temática de enfrentamento do luto não é uma novidade. Filmes como Direito de Amar, Tão Forte, Tão Perto e Manchester à Beira-Mar, por exemplo, tratam do assunto de forma contundente. O diferencial de Thunder Road está no bom-humor peculiar do diretor, que não cria cenas pasteurizadas e óbvias. Ele segue um caminho que trilha a fina linha entre tragédia e riso, criando fortes reflexões na história. É curioso o efeito.

A plasticidade da trama, que remete ao bom A Garota Ideal, também ajuda a criar essa diferenciada atmosfera de riso e luto, comicidade e tragédia. Cummings, apesar de ainda não ser um ponto fora da curva, se mostra como realizador bom e apaixonado.

O que tira um pouco de peso da trama é a banalidade da maioria das situações. Ainda que tenha esse diferencial do tom adotado pelo cineasta, a história parece com mais um drama independente perdido no mar de obras lançadas sobre a temática da pessoa-que-enfrenta-o-vazio-e-a-solidão. Não há grandes momentos que o tirem desse balaio. Uma cena final, que tenta fazer isso e chocar, não funciona: é desgarrada de tudo ali.

A banalidade da história e a burocracia no jeito de filmar só não afetam ainda mais a trama por conta das boas atuações. Cummings, como esperado, possui domínio sobre o seu personagem e uma força magnética. Algumas situações banais, como um descontrole na sede da polícia e uma conversa com a irmã, por exemplo, se tornam momentos memoráveis em suas mãos. Kendal Farr também se destaca, ainda que de maneira mais delicada. Chelsea Edmundson e Nican Robinson estão operantes.

É interessante um recurso estilístico adotado por Cummings. Quase não há trilha sonora. Afinal, logo na primeira cena, o personagem dança no silêncio numa das cenas tragicômicas vindas do curta-metragem. Nada mais correto, então, do que tornar o filme uma verdadeira dança no vazio, no nada, no trágico. É esperta a decisão do diretor.

Mas nada consegue vencer a banalidade de Thunder Road, que dá a sensação de que já foi visto algumas outras vezes. Cummings é talentoso como diretor e ator, a história é interessante e tom adotado é pouco usual. Mas falta algo que destaque o longa-metragem de outros produzidos na mesma linha ou com as mesmas intenções. Agora, é ficar de olho no cineasta, que pode trazer coisas bem melhores em sua impressionante carreira.

*Filme assistido durante a cobertura da 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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