• Matheus Mans

'Foi quase tudo improvisado', diz Gaspar Noé sobre 'Clímax'


Existem coletivas de imprensa que só atrapalham o filme em discussão. Às vezes, o diretor não sabe o que falar, o elenco claramente não está em sintonia ou, então, fica claro que ninguém sabe o que está fazendo ali. Outras coletivas, enquanto isso, elevam a potência e o significado do longa-metragem com cineastas interessados, elenco entrosado e objetivos claros. Foi o caso do bate-papo com o diretor argentino Gaspar Noé, que veio ao Brasil nesta semana para lançar Clímax, seu novo longa-metragem.

Durante a conversa, que durou cerca de uma hora, Noé mostrou que não foge das discussões e, principalmente, se provou ser um cineasta nato. Falou sobre os bastidores de seu novo longa-metragem, sobre os desafios de produções, desejos, medos, inspirações, drogas, conteúdo de seus filmes. "Eu sou polêmico?", reagiu o diretor após um jornalista questionar o impacto de filmes como Irreversível, com uma cena gráfica de estupro, e Love, com sequências de sexo explícito. "Vim no avião vendo um filme americano de guerra com tiro, sangue, pescoço cortado, mortes. E isso não é polêmico?"

Na sua nova produção, que desembarca no Brasil nesta quinta-feira, 31, o cineasta argentino mergulha na festa de um grupo de dançarinos. Tudo vai bem até que um ponche batizado começa a fazer efeito e a fazer com que todos ali entrem num transe hipnótico e histérico. E, a partir daí, segue-se uma pintura do inferno com sequências de delírio, violência, abuso, incesto e outras coisas do tipo. "É uma fábula", contextualizou o diretor. "Queria mostrar o caos coletivo, um grupo de pessoas entrando num estado psicótico, totalmente alteradas. Não precisa, necessariamente, falar sobre drogas."

Apesar da fala de Noé, porém, é difícil não relacionar seu filme com uma viagem alucinógena. A sensação, ao final da projeção, é que o espectador embarcou na vibe junto com os personagens -- tudo por conta dos movimentos elaborados de câmera e do design de som. O diretor, porém, garante que tudo correu bem nos bastidores. "Teve muita improvisação. Deixava todo mundo à vontade e seguíamos um roteiro de três, cinco páginas", contou. "As pessoas entravam no estado psicótico dos personagens, mas sem uso de drogas. Foi tudo muito fluído, muito natural, forte."

Dessa forma, Clímax acaba ganhando contornos quase documentais. Tudo ali, claro, é encenado, mas sem ter a pressão do diretor para que aconteça algo de um jeito ou de outro. Para Noé, tudo ali foi inspiração em catástrofes coletivas. "A história do filme é baseada em um acontecimento real, mas não me prendi em fatos. Deixei o elenco fluir livremente", explica. E ao ser questionado se ele experimentou drogas para contar essa história em específico, Noé dá a primeira e única esquivada de toda a conversa: "para falar a verdade, minha única droga é ser cineasta. Este, de verdade, é o meu vício."

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