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  • Matheus Mans

Hudson Senna fala sobre desafios e alegrias de 'A Quarta Parede'


Hudson Senna, há cerca de 10 anos, vestiu a camisa do time da Escola de Atores Wolf Maya e não a tirou mais. Cineasta, fotógrafo e artista plástico, ele é o principal responsável por gerenciar e comandar a produção de um filme, ao final de cada curso de atuação. Uma espécie de TCC para os atores da instituição. Seu mais novo projeto a ganhar vida é o longa-metragem A Quarta Parede, que conseguiu romper as barreiras da sala de aula e chega no Projeta às 7, sessão da rede Cinemark, nesta quinta-feira, 9.

Como já falamos aqui no Esquina, o longa-metragem traz uma boa discussão sobre as confluências entre redes sociais e artes -- tanto para o lado positivo quanto para o negativo. Segundo Senna, que conversou conosco sobre o lançamento do filme, grande parte das ideias surgiu na sala de aula. "Convidei meu amigo Bruno Autran para ser roteiristas e várias ideias, diálogos e situações surgiram de uma dinâmica que fiz com os atores antes da filmagem", conta o cineasta. "Bruno participou de tudo ativamente."

E apesar da boa estrutura da escola, Senna conta que enfrentou dificuldades naturais de uma produção cinematográfica -- como parceiros, correria da gravação e outras coisas. O foco dele agora, porém, é conseguir encontrar público para seu filme, para que o projeto consiga se estender para até além do cinema. "Queremos dialogar com o público", diz. Confira, abaixo, os principais trechos da entrevista com Hudson Senna:

Esquina da Cultura: Primeiro, como surgiu a ideia e como você entrou no projeto? O filme nasceu dentro da Escola de Atores ou acabou indo para lá posteriormente?

Hudson Senna: Quando conheci a turma, fiz um exercício com eles no qual eles se abrem e falam muito da relação deles com a profissão, com a arte e o que eles observam da sociedade. Esse exercício foi muito forte no nosso processo inicial de montagem. Então, durante os primeiros meses fomos nesse processo de adequação de linguagem em temas sociais que estavam sendo abordados no grupo e começamos a fazer alguns exercícios. Vendo isso, convidei o Bruno Autran para escrever uma história para eles. E o Bruno foi muito esperto. Foi às salas, foi às discussões. E, assim, soube captar o que os atores queriam falar. Até durante as discussões! Ele observava aquilo e pegava diálogos de nossas discussões e levava para o roteiro. Isso deu uma carga de naturalidade que era necessária. Era algo que estava muito vivo dentro do processo.

Esquina: A trama tem um jogo interessante entre o teatro e as redes sociais. Como você vê a influência entre o mundo digital e as artes? Você acha que uma coisa está contaminando a outra? Ou há mais espaço para a colaboração entre os meios?

Hudson: Em A Quarta Parede, abordamos a necessidade de ter uma rede que faça com que as pessoas assistam, entrem no teatro, como uma forma de divulgação. Afinal, vemos que é cada vez mais comum que as pessoas usem sua rede, sua influência, como uma forma de publicidade e divulgação para uma peça ou até outras áreas da arte. São pessoas bem sucedidas e seguidas. Eu, sinceramente, não vejo nenhum grande problema nisso, desde que a pessoa tenha consciência do que está fazendo -- e o contratante também. Mas há um outro lado. As coisas hoje são absorvidas com certa rapidez, agilidade. Ninguém mais tem tempo para elaborar as coisas. O que é preciso, então, é se apropriar desses meios de comunicação. Dá para ser artista e estar nas redes sociais, conectado com o que está acontecendo. Há muitas maneiras de fazer arte. Usar as redes sociais pode ser uma.

Esquina: Como foi para trabalhar com os atores da Escola de Atores Wolf Maya? Ajudou a afinar mais a história?

Hudson: Trabalhar com os atores da escola foi ótimo. Como estou lá há muito tempo, já tenho os caminhos de como viabilizar um projeto em quatro, cinco, seis meses. O elenco também estava muito afinado comigo. Era uma turma muito empolgada e estavam unidos, preparados, prontos para fazer um filme. Até a escolha do elenco ficou fácil. A gente já vinha fazendo exercícios, fizemos testes rápidos, algumas discussões viraram roteiro. Virou um processo muito colaborativo, fácil de acontecer e sem muitos problemas. E era um trabalho de formação do indivíduo também. O artista, afinal, não pode ser uma pessoa comum. Tem que pensar a sociedade de uma maneira diferente. Tem que absorver as coisas ao seu redor de maneira diferente. Até na hora de usar no seu personagem. Tem que ser espelho da sociedade. Tem que ter uma opinião. E trazer essa reflexão para a discussão do filme é fantástico. Fazer o filme não é uma vaidade, é para falarmos algo. E isso é mágico.

Esquina: Quais os desafios que você encontrou no filme? Como foi sua experiência no seu primeiro longa?

Hudson: São vários desafios ao longo da produção. O meu grande desafio, particularmente, foi pensar, fazer a fotografia e dirigir ao mesmo tempo. Já pensando no coletivo, foi o processo de criação. As pessoas precisam estar conectadas. A parte mais difícil é colocar todos andando no mesmo sentido. Depois disso, ainda tem o desafio de levar um primeiro longa para o cinema. É difícil conseguir apoiadores, arranjar pessoas que nos ajudem de alguma forma... Agora, por fim, tem o desafio de levar o público para a sala de cinema. A gente produz, a gente se esforça, colocamos nosso talento. Mas nada disso adianta se as pessoas não assistirem. Nosso primeiro desafio era fazer com qualidade. Agora é atingir as pessoas.

Além disso, há um desafio diário de se manter. Como fazer arte se está cada vez mais difícil de se manter, de trabalhar com isso? A gente precisa de pessoas pensantes, precisamos da arte, e precisamos que as pessoas assistem, pensem, reflitam sobre a sociedade. O desafio é diário para que a gente continue fazendo isso. O cinema nacional tem uma caminhada difícil, mas estamos num processo lindo, que não pode ser interrompido por nada. Já temos uma linguagem. Não ter a oportunidade de fazer um filme, para quem quer isso, é triste. Claro que o artista cria uma maneira de fazer -- vai haver um movimento para que coisas novas aconteçam. Mas não podemos ficar parados.

Esquina: O que espera do filme daqui pra frente? E você já tem novos projetos?

Hudson: Eu espero que o filme tenha vida longa. A gente gera para colocar no filme e para que ele, agora, se comunique. Que tenha vida própria. É isso que eu espero e tenho certeza de que vai acontecer. O filme foi feito com garra, com amor, com entrega. E isso é perceptível. Já que, quando as pessoas assistem, veem algo novo. Não há algo parecido. Estou preparado para as críticas que possamos receber, não tenho problemas com isso. Mas espero que ele percorra sua longevidade. E os meus projetos, daqui pra frente, A Quarta Parede está no meio disso. Vou batalhar para que o filme tenha o seu espaço. Eu também estou preparando uma instalação agora no segundo semestre. É algo mais autoral, uma coisa particular minha. Estou preparando também um longa que vou filmar. É da primeira peça que dirigi, um texto da minha esposa. Então, no segundo semestre, vamos começar a fazer imagens, escolha de elenco, locação, reunir equipe. Além disso, estou no meio da filmagem de uma outra turma lá na escola. Nem todos terão esse caminho que A Quarta Parede está tendo, mas produção lá não para.