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  • Foto do escritorAmilton Pinheiro

No 1º dia das mostras de curtas, Lanterna Mágica oscila entre razoáveis, fracos, instigantes e perturbadores



A largada da sexta edição do Festival Internacional de Animação Lanterna Mágica foi dada na noite de quarta, 20. Foi o primeiro dia das mostras competitivas internacional e a nacional no Cine X no Centro Cultural Oscar Niemeyer, o que revela parte do trabalho realizado pela curadoria com as seleções dos filmes.


A sessão das 18h30 foi dedicada a primeira parte dos curtas da competitiva da mostra nacional com a exibição de seis produções (Diafragma, Jussara, A Cabeça e o Corpo, Carcinização, O Cacto e Curacanga). Com uma duração de 1h03, não foi enfadonha, transcorrendo bem para assimilarmos as diferentes histórias e técnicas usadas por cada animação, um acerto da curadoria.


Um dos trabalhos mais complicados de uma curadoria, quando vai distribuir os curtas de uma sessão, é conseguir dar uma “unidade temática” aos filmes, mostrando ali uma espécie de ponto em comum que una as diversas histórias contadas e a maneira como elas são contadas.


Os seis curtas trazem, claro, técnicas de animação diferentes, falam de forma geral num mundo em que você precisa se adequar a norma para não se sentir rejeitado, diferente, um estranho. É um mundo hostil que te faz tentar não ser dessemelhante, o diferente. A inadequação permeia a luta dos personagens para se enquadrar ao mesmo tempo tem aqueles que possuem algum problema de saúde e precisam não se abater diante desse ambiente hostil.



Diafragma, de Robson Cavalcante, o primeiro curta de animação realizado em Teotônio Vilela, interior de Alagoas, conta a vida de uma criança que descobre que tem diabetes e que no futuro certamente perderá totalmente a visão. A partir daí ele empreende sua jornada de adequação para não ficar fora da sociabilidade, transformando o mundo hostil ao seu favor, mesmo vivendo com as restrições da deficiência visual e potencializando a beleza do cotidiano e das coisas simples. Em tom onírico, fabular e ricamente colorido, Diafragma é bem realizado e narrado, tornando tudo, no olhar do espectador, em belas aquarelas.


Jussara, de Camila Ribeiro (BA), conta a história de uma senhora negra de uma vila no Chapada Diamantina que passou anos da vida ensinando as pessoas a importância dos livros e das palavras, mas que agora precisa se libertar de todas as amarras impostas pelo vida, pelo tempo. Uma animação que presta uma homenagem a três escritoras negras: Carolina de Jesus, Conceição Tavares e Ana Maria Gonçalves. O traço fisionômico da personagem central seria a própria Conceição Tavares. A animação usa a técnica de rotoscopia, que é filmar para depois desenhar em cima, além disso, numa das passagens da animação a diretora aplica aquarela. Tudo é muito simples  na animação, os traços dos personagens, das paisagens, da ambientação, o que não é um problema. O que não se explica é uma história que versa sobre o poder da palavra, da literatura, da sabedoria popular, ser narrado sem diálogos, escutamos apenas grunhidos. Fica uma sensação de aprisionamento, de ruído incômodo e sufocante. 


A Cabeça e o Corpo, de Val Dobler e Mirian Miranda (SC), é uma conclusão de curso universitário, ao fabular sobre um personagem que se cansa da sua cabeça, se livrando dela para se libertar. Aqui tem um interessante exercício de tratar da identidade de gênero de forma alegórica e fabular, com esse personagem que sai sem cabeça pelos lugares para experimentar outras vivências e finalmente se sentir bem consigo mesmo, aceito. Faltou aqui caprichar mais nos traços, nos cenários e na própria dramaturgia, o que torna tudo muito comum.


Carcinização, de Denis Sousa (RS), sobre três jovens que não se sentem satisfeitos com suas vidas e escolhas, ao ponto de um deles querer virar um caranguejo. O desenho parece um caleidoscópio, com suas cores berrantes e cenários estilizados, inclusive nos traços dos personagens, numa jornada alucinante. O que destoa do esforço da animação é o descuidado com a dublagem dos personagens, as vozes não se encaixam nos personagens, dando a sensação de algo artificial, desconectado. Outro ponto que poderia ser melhorado são os diálogos que poderiam ser mais convincentes.


O Cacto, de Ricardo Kump (SP), o melhor das duas mostras exibidas na quarta, 20, não somente pela misturas de técnicas, com destaque para a colagem, mas principalmente pelo esmero do visual, da concepção artística e dramatúrgica, além da palheta de cores. Na história, um homem que tem uma doença grave que faz com que ele fique paralisado completamente, cai do cavalo e fica ali a céu aberto, num lugar a esmo, hostil, para ser devorado por tudo em volta, a natureza, as formigas, as aves de rapinas, etc. O curta é baseado num texto (conto) do argentino Santiago Dabove (1889-1951), Ser Polvo, um conto de horror fantástico, muito bem adaptado pelo Kump em seu filme requintado visualmente, bem concebido conceitualmente e poderoso em sua dramaturgia e técnicas aplicadas. Certamente é um forte candidato aos prêmios do júri oficial do Lanterna Mágica. 



Curacanga, de Mateus di Mambro (BA), fala de uma história mitológica, uma espécie de maldição, de um ser que aparece possuir quem quer que atravesse seu caminho. Passado num sertão e num tempo qualquer, um homem, para conquistar sua amada que perdeu uma irmã para esse ser diabólico, é impelido a matar a coisa para enfim conquistar o amor da sua amada. O filme se arrasta nessa história que já é antecipada pelo espectador, já sabendo o final dessa jornada de maldição. A dublagem não flui satisfatoriamente, parecendo algo empolado demais, teatralizado. O desenho é mais rudimentar, faltando mais esmero na concepção visual dos traços dos personagens e cenários. E seu tempo alongado, pouco mais de dezoito minutos, tira o ritmo  e o interesse da história e do espectador.


Curtas internacionais, requinte no desenho e complexas histórias


A primeira parte da sessão dos curtas internacionais da mostra competitiva exibiu nove produções (Juliana, Dead Air, The Grand Book, Simbiosis, Sileo, A Kind of Testament, Shakespeare For All Ages, Penguins e Brewberry Spell), quase todos de países europeus, com exceção de um filme dos Estados Unidos, Penguins, de Viviane N., com duração de pouco mais de uma hora e dez minutos.


Um dos problemas da sessão foi a legenda de alguns filmes que ou não ficaram disponíveis ou que saíram pela metade, dificultando o entendimento e o interesse pelo público presente no lugar, formado por alguns jovens, crianças também, além dos adultos, jornalistas e diretores. Após a sessão, fomos falar com o produtor executivo do festival, Wadih Elkadi, que explicou que alguns diretores não enviaram os filmes em DCPs, o que fez com que a produção do festival gerasse DCPs, só que durante a projeção eles deram problemas na legenda. Questionado novamente se eles não fizeram o teste da projeção, Elkadi falou que eles sabiam dos riscos que poderiam ocorrer durante a exibição dos filmes, mas eles preferiam correr do que cancelar as sessões.


Os curtas internacionais dessa primeira parte da mostra internacional foram bem diversos nas suas temáticas, técnicas aplicadas nos desenhos, duração, e na dramaturgia. Quatro deles merecem destaque (The Grand Book, A Kind of Testament, Brewberry Spell e Sileo), três deles, retratos perturbadores de um mundo hostil e sem liberdade, seja no passado ou num futuro distópico. 



The Grand Book, de Arjan Brentjes (Holanda), ambientado nos anos de 1920, num cenário que lembra a época do cinema mudo, uma jovem meio zumbi transita pelas ruas vigiadas por câmeras e pessoas hostis, não restando outra coisa a fazer, fugir da opressão. Nesse “Grande Irmão” do passado, o único lugar seguro e livre é dentro dos seus próprios sonhos. Com traços caprichados tanto dos personagens como do ambiente, uma trilha sonora acertada, não há diálogos, outro acerto e uma palheta de cores que vai do marrom ao vermelho, o visual é belo, a história é perturbadora e incomum, mostrando a elegância e a força desse curta de animação.


Brewberry Spell, de Annika Nimz (Alemanha), é uma história que podemos chamar de “fofinha”, sem ser nenhum demérito, pelo contrário. É gostoso de assistir e acompanhar os percalços de uma jovem bruxinha que se apaixona por uma garçonete, mas que não tem coragem de se declarar por se sentir diferente demais dela. Novamente a inadequação e a não aceitação como pontos explorados por grande parte das animações exibidas nesse primeira dia das mostras competitivas nacional e internacional. A animação é bem concebida nos traços dos personagens, nas cores apresentadas, na dramaturgia e no desfecho que todos nós esperamos para histórias como esta. Outro aspecto interessante nessa animação é trazer um tema adulto, o amor entre duas pessoas do mesmo gênero e como lidar com isso consigo mesma, com o outro e com a sociedade em volta. 


A Kind of Testament, de Stephen Vuillemin (França), traz o mesmo tom perturbador de The Grand Book, na história de uma jovem as voltas com suas selfies e seu consumo desenfreado por coisas que nunca a deixam satisfeitas. Um belo dia, ela descobre pela internet que suas selfies criaram animações de outras pessoas, ela não é mais o que é. Nesse espelhamento de não se ver refletida, seu mundo vai se transformando num lugar hostilizado ao ponto de dentro da nuca dela sair uma cabeça de um outro ser, deixando tudo aterrorizante e desumanizado. O curta foi um dos 15 pré finalistas do Oscar de curta de animação e passou no Festival de Berlim. A história é melhor do que os traços e a cores da animação.


Sileo, de Deméter Lorant (Hungria), é uma espécie de Blader Runner – Caçador de Androides, de Ridley Scott, da animação. Num mundo futurista um robô que trabalha num fábrica e vive passando por consertos até que um dia ficará obsoleto, mas antes que isso aconteça, ele decide sair do galpão onde é alojado junto com outros robôs iguais a ele e procurar o seu inventor, outra máquina nesse mundo em que o ser humano foi substituído definitivamente. A concepção desse futuro é muito criativa e caprichada nos traços das edificações, das ruas, do aparato tecnológico. Além disso, os questionamentos da robô são os mesmos que os seres humanos fazem, para que serve tudo isso, nossa existência, esse mundo, etc. Outro aspecto a ser salientado é a palheta de cores, bem cromáticas, destacando os vários tons de azuis.

 

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