top of page

Olhar de Cinema 2026: Filmes mostram como o pertencimento afeta indivíduo, coletivo e uma comunidade

  • Foto do escritor: Amilton Pinheiro
    Amilton Pinheiro
  • 7 de jun.
  • 4 min de leitura

A edição comemorativa dos 15 anos do Olhar de Cinema reúne 80 filmes distribuídos em oito mostras, incluindo as competitivas Internacional e Brasileira, além da Pequenos Olhares, dedicada às crianças; Olhares Clássicos; Novos Olhares; Mirada Paranaense, voltada às produções do estado; Exibições Especiais; e Olhar Retrospectivo, dedicado ao centenário do diretor polonês Andrzej Wajda (1926-2026), com a exibição de seis de seus filmes (As Donzelas de Wilko, Caça às Moscas, O Maestro, Os Feiticeiros Inocentes, Terra Prometida e Tudo à Venda).


Essa imersão proposta pelo festival começou na quinta-feira, dia 5, com a primeira exibição pública de Yellow Cake, do diretor pernambucano Tiago Melo, em uma Ópera de Arame lotada. Cerca de 1.500 pessoas prestigiaram a sessão e se entusiasmaram com a presença da atriz Tânia Maria (O Agente Secreto), como já registramos anteriormente. Ela integra o elenco ao lado da protagonista Rejane Faria.



Na sexta-feira, dia 6, começaram as duas principais mostras competitivas do festival: a Brasileira, com oito longas-metragens, e a Internacional, com sete. As exibições acontecem no Museu Oscar Niemeyer (MON), em uma sala confortável, com boa projeção, dentro de um dos espaços culturais mais importantes da cidade.


Antes de falar dos dois filmes exibidos nas mostras principais, dedico um espaço ao cineasta catalão José Luis Guerín, que eu ainda não conhecia e cuja obra mais recente me deixou profundamente impactado pela beleza. Histórias de um Bom Vale (Historias del Buen Valle, 2026) é um retrato geográfico e profundamente humano do bairro Vallbona, localizado em um distrito periférico no extremo norte de Barcelona. Durante três anos, o diretor filmou o local, entrevistando moradores, acompanhando as transformações do bairro e se envolvendo — ele e sua câmera — com aquelas pessoas.



Guerín constrói seus registros rompendo as fronteiras entre documentário e ficção, com uma impressionante habilidade para narrar de forma quase ficcional as conversas entre os moradores. Parte desse êxito, evidentemente, está na intervenção do diretor. O que vemos são pessoas cheias de pertencimento e orgulho pelo lugar onde vivem, para além dos problemas cotidianos. Velhos, adultos, jovens e crianças ocupam a tela e dão forma a esse mosaico humano.


Há momentos memoráveis e planos que permanecem por muito tempo na memória do espectador. Um deles mostra um morador observando, do alto de um morro, o bairro que o viu envelhecer. De costas, ele parece se fundir a uma árvore em um jogo de luz e sombra que apenas o cinema consegue capturar. Já os registros das conversas corriqueiras e cheias de vida dos moradores durante momentos de lazer às margens do rio que corta o bairro são deslumbrantes e deixam o público em estado de suspensão.


Os entrevistados vão se revelando aos poucos, enquanto acompanhamos atentamente relatos carregados de memória, marcados pela riqueza étnica e geracional daqueles que habitam esse pequeno e singular canto do mundo.


Uma prece em um filme densamente registrado em preto e branco


A Mostra Competitiva Internacional apresentou o primeiro longa-metragem do diretor moçambicano Ique Langa, O Profeta (The Prophet, 2026). O cineasta não estava presente, mas enviou um vídeo, exibido antes da sessão, agradecendo ao festival e demonstrando curiosidade sobre a recepção do público.



A história acompanha Hélder (Admiro Laura Munguambe), um pastor que entra em crise quando sua congregação começa a se esvaziar diante de seus olhos. Sem rumo, ele passa a se envolver com saberes e rituais tradicionais da região para, em uma espécie de pacto fáustico, atrair novamente as “ovelhas” desgarradas.


O diretor trabalha quase todo o tempo com planos fixos e enquadramentos divididos em duas janelas visuais distintas, limitando aquilo que é mostrado. Em um intenso preto e branco, alterna closes e planos mais abertos para acompanhar as perambulações de Hélder pelos arredores de sua casa, pelas ruas da comunidade, nas visitas ao hospital ao lado da esposa, nos pactos firmados com uma espécie de feitiçaria local e nos banhos de rio em uma tentativa inglória de exorcizar inseguranças e ambições.


Langa filma quase tudo entre silêncios, poucos diálogos e cânticos cristãos, construindo uma espécie de oração cinematográfica sobre redenção e fracasso. À medida que essa expiação avança, a janela visual se amplia. Ainda assim, o roteiro não desenvolve plenamente seus conflitos, o que acaba limitando o potencial da narrativa sobre um pastor em crise com a fé e consigo mesmo.


Sob o signo do poder da arte e da busca por ser quem se é


A Mostra Competitiva Brasileira começou com uma grata surpresa: o documentário Telúrica, a Íntima Utopia, da diretora pernambucana Mariana Lacerda (Gyuri, 2020), um filme que explora as infinitas possibilidades da arte dentro de uma companhia de teatro.


O documentário acompanha o processo de montagem de um espetáculo da companhia paulistana Ueinzz, criada em 1996 e formada por pessoas com sofrimento psíquico, atores, profissionais de diversas áreas e pensadores.


Diferentemente de filmes que retratam a criação de uma peça teatral destacando texto, autoria ou encenação, Telúrica, a Íntima Utopia propõe um caminho radical: mostrar experiências individuais dentro de uma construção coletiva e revelar o intangível, as imagens do inconsciente corporal.



O filme não pretende contar a história da Ueinzz nem expor os diagnósticos de seus integrantes. Seu interesse está em testemunhar, por meio da câmera, a experiência transcendental e humanizadora do que acontece diante dela. A busca se concentra na interação entre os integrantes da companhia e o próprio processo de realização do documentário, em um emaranhado de improvisações e emoções não controladas.


Nesse jogo entre o registro do processo criativo e a convivência entre os participantes, transbordam singularidades capazes de nos retirar do conforto de pensamentos arraigados em uma sociedade utilitarista e individualista.


Com uma montagem precisa, ritmo ágil e personagens cativantes, Telúrica, a Íntima Utopia é uma experiência — e também um experimento — sobre a relação do indivíduo consigo mesmo e com o outro. A arte surge como mediadora desses encontros, transformando todos ao redor, inclusive a própria equipe do filme.


bottom of page