Olhar de Cinema 2026: um tropeço no gênero e um acerto no documentário
- Amilton Pinheiro
- há 3 horas
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Cinco dos oito filmes brasileiros da mostra competitiva do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, em sua 15ª edição – abordam temas bastante diversos e apresentam usos interessantes de dispositivos de linguagem e caminhos estéticos distintos, ainda que nem sempre alcancem resultados plenamente satisfatórios.
O diretor alagoano Rafhael Barbosa (Cavalo, 2021) já fez história no Olhar de Cinema ao levar, acredito, uma das maiores equipes já vistas em um festival nacional. Eram mais de 20 pessoas entre elenco, equipe técnica e distribuidores, o que ajudou a criar um clima de entusiasmo antes da sessão lotada de Olhe Para Mim.

Outra excelente notícia vinda de Alagoas, segundo relatou o diretor durante a apresentação do filme, é que atualmente existem mais de dez longas-metragens produzidos no estado já concluídos ou em fase final de produção. É o cinema brasileiro
se expandindo e lutando para ser visto, apesar dos reveses já conhecidos.
Dito isso, vamos às impressões e reflexões sobre Olhe Para Mim.
Uma alegoria que mistura terror e fantasia em uma história visualmente bela, mas sem tensão ou medo
Um dos traumas de muitas crianças que cresceram no interior do Nordeste era ouvir histórias de assombrações, entidades e mortos — os famosos “causos”, narrados quase sadicamente pelos mais velhos — e depois precisar dormir.
O diretor revelou que sua infância em Arapiraca, Alagoas, foi povoada por esses mitos e histórias sobrenaturais. Somente na vida adulta ele passou a assistir a filmes de terror norte-americanos e, ainda que tenha se decepcionado com muitos deles, percebeu que queria contar histórias inspiradas nesse universo do imaginário popular.
Em Olhe Para Mim, Sandra (Rejane Faria) viaja de carro com o filho Ivan (Luciano Pedro Jr.) até uma cidade do interior brasileiro. O rapaz sofre de uma condição nunca explicada pelo filme: vive com o rosto coberto por um pano devido à extrema sensibilidade à luz e se comunica por meio de grunhidos.

No local, Ivan conhece Marcelo (Ulisses Arthur) durante uma festa popular. Reservado e introspectivo, o jovem sonha em deixar a cidade, que o oprime tanto quanto sua própria casa. Órfão de mãe desde a infância, convive com uma madrasta que o considera estranho.
Durante um encontro noturno, os dois se aproximam. Deitados sobre uma plataforma de madeira à beira de um rio, imaginam empreender uma viagem sem rumo.
Alguns planos do filme chamam atenção pela força visual. É o caso da cena em que Marcelo, usando enormes asas, sobe uma ladeira de pedra em direção a uma intensa fonte de luz. O jogo de claro e escuro remete a imagens clássicas do cinema de horror, evocando títulos como O Exorcista.
Embora flerte constantemente com o terror e o fantástico, o filme não consegue construir momentos efetivos de suspense ou medo. Isso fica evidente em cenas como a de Sandra entrando, à noite, em uma casa escura apenas com uma lanterna e encontrando um cadáver no banheiro — sequência que deveria provocar tensão, mas passa sem grande impacto.
Nesse road movie em transformação permanente, há espaço para imagens cuidadosamente compostas, registradas em localidades como Penedo e Belo Monte, mas também para um roteiro disperso, repleto de situações que parecem carecer de coerência dramática ou propósito narrativo.
A referência ao mito da Rasga-Mortalha — a coruja cujo canto sobre um telhado anuncia a morte — surge sem o devido desenvolvimento e acaba ficando solta em uma narrativa construída, intencionalmente ou não, de forma hermética. O excesso de simbolismos parece impedir o filme de enfrentar de maneira mais direta temas promissores, como o preconceito contra o diferente, a rejeição, o universo queer e a dificuldade de compreender aquilo que não funciona como um espelho de si mesmo.
Barbosa não consegue imprimir o rigor que os melhores filmes de terror e fantasia exigem. Apesar da riqueza simbólica de sua proposta, o filme entrega menos do que promete. Ao final, permanece a sensação de que faltou desenvolver de maneira mais consistente uma história sustentada essencialmente pela força de suas alegorias.
Quando a necessidade de denunciar se transforma em um gesto cinematográfico de afeto e potência
O diretor mineiro João Dumans (Arábia, codirigido com Affonso Uchôa, 2017) sentiu-se compelido a realizar um documentário para denunciar mais um episódio de expropriação promovido pela mineração em Minas Gerais. Desta vez, o foco está na atuação da Gerdau no distrito de Miguel Burnier, localizado na região de Ouro Preto, cidade onde o cineasta vive atualmente.
Durante a pesquisa, Dumans entrevistou diversos moradores da localidade. Antes da chegada da mineradora, Miguel Burnier contava com cerca de 800 habitantes; hoje, esse número gira em torno de 80.

Os três anos de convivência na região, acompanhando de perto a rotina dos moradores — quase todos com poucos recursos e baixa escolaridade — transformaram radicalmente o projeto original. O resultado foi A Noite e os Dias de Miguel Burnier, exibido na mostra competitiva brasileira do Olhar de Cinema.
Nos registros que chegaram à montagem final, Dumans alcança algo raro: construir um retrato íntimo e afetuoso de personagens que ganham protagonismo em uma narrativa que encontra sua verdadeira razão de existir justamente ao mudar de direção.
Sua câmera parece dissolver-se no cotidiano dessas pessoas, captando vidas marcadas por restrições materiais, falta de perspectivas, vícios e desesperanças, mas também por pequenos instantes de alegria. Seja em encontros para beber e ouvir música, seja em tarefas simples, como varrer um quintal ou observar uma avó brincando com a neta recém-nascida, o filme encontra humanidade onde o olhar apressado dificilmente a perceberia.
Enquanto a noite avança e parece engolir metaforicamente a vida daqueles moradores, as instalações iluminadas da Gerdau surgem no horizonte como uma espécie de nave espacial habitada por seres que devoram a terra e as pessoas que permanecem ali. Os dias transformam-se em prenúncios de um fim anunciado, mas, paradoxalmente, também revelam beleza e resistência em meio ao desencanto.
Nessa disputa desigual entre trabalho e capital, homem e máquina, esperança e resignação, a resistência vai cedendo espaço ao avanço inevitável dos trens carregados de minério e equipamentos. Em um dos planos mais marcantes do documentário, Dumans sintetiza a lógica implacável do progresso: a locomotiva não pode parar.

