• Matheus Mans

Para Gabriela Amaral Almeida, terror é forma de encarar incertezas


A cineasta Gabriela Amaral Almeida impressionou em 2018 quando lançou O Animal Cordial, seu primeiro longa-metragem. Repleto de boas referências do cinema de horror, como o slasher e o Giallo, o filme reafirmou a força do Brasil em produzir filmes do gênero. Agora, pouco mais de seis meses depois de seu primeiro lançamento nos cinemas brasileiras, Gabriela volta a revisitar o gênero com o interessante A Sombra do Pai. Desta vez, porém, com referências mais fincadas no sobrenatural e na bruxaria

"Tive a ideia há oito anos, quando saí da escola de cinema de Cuba. A história era o que estava mais próxima da minha lembrança de infância. A relação do mundo infantil com o mundo adulto, do mundo lúdico com o mundo do trabalho", disse a cineasta em entrevista ao Esquina. "Nesse meio tempo, acabei revisitando o texto várias vezes, fiz outras coisas, até chegar ao ponto do filme. Tive tempo para pensar nessa história."

O longa-metragem, que chegou aos cinemas nesta quinta, 2, acompanha a jornada de uma garotinha que vê sua família ruir. A mãe morreu, o pai não consegue superar o período de luto e a tia, única pessoa que parece sã entre os familiares, está perto de ir embora por conta de um romance que engatou. Dessa maneira, as coisas acabam caindo nas costas da menininha, que sofre com as mudanças familiares e com o fardo que precisa carregar. Como solução, acaba recorrendo à feitiçaria e ao sobrenatural.

Segundo Gabriela, era essencial encontrar um elenco que estivesse no clima da história. "Os atores são essenciais para a história", diz a cineasta, empolgada com o lançamento de seu novo filme. "Achei a Nina [Medeiros, protagonista do filme] após testes com umas 300 crianças. O olhar dela é muito forte e ela é muito ativa, muito disposta ao jogo. Fazer cinema é uma coisa muito puxada e ela conseguiu desbravá-lo de maneira muito feliz."

Quando a diretora conta os bastidores do filme, fica claro que não foi fácil a filmagem de A Sombra do Pai. Enquanto O Animal Cordial foi gravado em alguns poucos dias, de maneira linear, seu novo filme demandou 31 dias de filmagem. E a produção é bem mais complexa do que seu debut no cinema nacional, já que agora a trama envolve uma criança e espaços complicados de gravar, como uma construção. "Parece que foi muito tempo de filmagem, mas não. Filmar com crianças traz vários imprevistos", disse ela.

Terror no Brasil

Junto com Juliana Rojas e Marco Dutra, Gabriela Amaral Almeida se tornou o grande nome do terror nacional contemporâneo. Ainda que o Brasil tenha história no gênero, com as produções de Zé do Caixão, o horror ficou adormecido durante alguns anos, quando a comédia pastelão tomou conta dos principais lançamentos do País. Com os incentivos cada vez mais frequentes, cineastas começaram a se aventurar nessas produções que fogem do óbvio -- e que agora ficam ameaçados com o novo governo.

Para Gabriela, esse boom do terror é, na verdade, um fenômeno global. "No Brasil e no mundo, passamos por transformações e crises profundas. O filme fantástico e de horror, que traz alegoria de temas ásperos, dá conta de nos aproximar de questões complexas de forma lúdica", diz ao Esquina, por telefone. "Chegamos em um ponto da história que é tanto enigma, tanta crise que, na ausência de respostas imediatas, as alegorias ajudam a formular as perguntas sobre o período. São, sem dúvida, tempos graves de incerteza."