• Matheus Mans

Qual o significado de ‘Aniquilação’, novo filme de Alex Garland?


Atenção: Esta análise, é claro, está lotada de spoilers sobre o filme ‘Aniquilação’. Se você já assistiu ou não se importa em ler spoilers, vá em frente. Ou, então, guarde o link pra mais tarde!

Em determinado momento de Aniquilação, a personagem de Natalie Portman é vista lendo o livro A Vida Imortal de Henrietta Lacks. E não é por acaso: ele conta a história real de uma americana que teve as células retiradas em laboratório e que, desde então, se reproduzem infinitamente para fins médicos e fármacos. É, basicamente, uma dica visual e reafirmação de algo que foi dito no começo do filme pela personagem de Portman, a bióloga Lena: as células se reproduzem infinitamente, construindo estruturas, órgãos e, claro, o próprio ser vivo.

E por qual motivo essa informação é tão recorrente no novo longa de Alex Garland, diretor do sensacional Ex_Machina? Simples: é a chave de tudo. Assim como o químico francês Antoine Lavoisier disse que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, no filme vemos um processo parecido. O tal brilho misterioso -- do qual iremos falar daqui a pouco -- é uma área de experimentação celular. Lá, o que parecem ser alienígenas criam e transformam a matéria orgânica em representações que não condizem com a realidade da vida.

Mais: vários acontecimentos mostram que nada ali se perde para sempre. A Dr. Ventress (Jennifer Jason Leigh) não morre, mas vira um espectro luminoso de células que partem para compor o Brilho e, enfim, se tornar o simulacro de Lena. Até a personagem de Shepard (Tuva Novotny), devorada por um animal mutante, acaba transgredindo as regras gerais da física e afins quando “deixa” sua voz no interior da besta. E claro, Josie (Tessa Thompson) que vira uma planta. Nada ali sumiu ou morreu, mas se transformou e encontrou novas formas.

Muito bem. Com isso estabelecido, agora surgem as questões mais avançadas sobre os significados do filme. Primeiro: qual o motivo das pessoas entrarem lá? Como a própria Dr. Ventress diz, é autodestruição. Aniquilação, nas palavras do filme. As pessoas que ali vão não possuem perspectivas positivas na vida -- uma se mutila para se sentir viva, outra se droga, outra perdeu a filha. Portman, por outro lado, quer resultados e respostas e, por isso, sai viva de lá. Ao contrário do marido, que descobriu a traição e, desiludido, resolveu entrar no Brilho.

Então, mais do que uma aniquilação, entrar no Brilho provoca algum tipo de transformação interna, ainda que a casca possa continuar sendo a mesma. As personagens que ali mudam e se alteram tinham esse desejo. Afinal, usar drogas causa o que? E se mutilar, prova o que para a pessoa? E uma pessoa que perdeu o filho, está em busca do que? Essas respostas, as personagens acreditavam, estava na transformação de matéria que os aliens trouxeram ao mundo.

É quase como A Chegada, ainda que um pouco menos genial, no ponto da linguagem. A personagem de Amy Adams, no longa-metragem de Denis Villeneuve, descobre como usar a linguagem circular e, com isso, enfrenta um grave trauma pessoal. Aqui, a coisa é muito parecida. As personagens se transformam por opção, por mais obscura e tenebrosa seja a tal da transformação. A zona alienígena é apenas uma área de busca de personagens já desiludidos.

O mais interessante é que a própria zona alienígena não acaba por completo. Ainda que a personagem de Natalie Portman tenha a inteligente sacada de fazer o simulacro simular a bomba para destruir toda a zona, ela continua viva. No final do filme, quando ela abraça a representação alienígena de seu marido, as cores do brilho se mostram vivas e presentes no olho de Portman. É, assim como Henrietta Lacks, a perpetuação da vida celular após a morte física.

Ou seja: mais do que uma trama de descoberta de alienígenas ou de exploração de zonas misteriosas, Alex Garland quis criar uma história metafísica que retrate o sistema de “troca e devolução” do cosmos. Quando um organismo acaba, ele entra para um espaço imaginário e virtual para se transformar em outra coisa -- e, no brilho, isso é intensificado para dar uma sensação maior ao espectador. É, enfim, o que a ficção científica sabe fazer de melhor, por mais que o longa-metragem tenha problemas que já pontuamos por aqui. É, enfim, o verdadeiro cinema.