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  • Tamires Lietti

Rodinha no pé: Viver viajando e a importância daquilo que não se vê










Em setembro, o mês inaugural dessa coluna, eu escrevi sobre o Sudão. Já tem quase 3 meses que deixei a área dos “developing countries” e atualmente escrevo esse texto em território Europeu, onde há muita qualidade de vida. Desde minha jornada na África, Egito e Sudão, muitos pensamentos me passaram pela cabeça.


Eu sei que é meio clichê dizer que viajar é aprendizado, mas eu ressignifiquei essa frase para torná-la mais verdadeira possível. Hoje em dia não é algo que eu falo da boca pra fora; viajar é mesmo um aprendizado. Eu sou questionada toda semana sobre minhas viagens, sobre como torná-las reais, sobre o “segredo” pra ter uma vida repleta delas, e é exatamente disso que eu quero falar hoje. Espero que meus argumentos não caiam no clichê.


Eu até hoje não abri meu Instagram para o público e ainda não abracei completamente todos os meus incentivos pra blogueiras sobre minhas aventuras. O real motivo disso é que, na verdade, eu não me identifico nem um pouco com o perfil do viajante blogueiro. Dia desses, lendo as sábias e hilárias palavras de Mark Manson (de A Sutil Arte de Ligar o F*d*-se), acho que finalmente entendi o porquê dessa não identificação.

Aparentemente, Manson viveu uma vida como a minha, meio que sem endereço, pipocando o quanto dava, sempre por aí. Só que ele estava numa constante fuga, por isso se movia tanto. Diz ele que não sabia do que exatamente estava fugindo ou porque sentia essa necessidade. Nessas, entrou em piloto automático e passou anos exaustivos visitando países, quebrando corações, acordando em camas desconhecidas e criando laços que ele mesmo chamou de frágeis. Ele disse que seus anos de aventura pelo mundo foram guiados por valores fraquíssimos e, por que não, errados. E então ele apresenta valores que hoje entende como certo, e um deles é a pura e mais sincera curiosidade. Foi então que comecei a me identificar.


Eu namorei 9 dos últimos 12 meses que passei viajando. Quando ainda estava no processo de conhecer meu ex-parceiro, entender o que havia o levado ao país onde estávamos – o Egito – e o que ele planejava com aquela experiência, ele me disse uma frase que nunca mais esqueci: "todos os viajantes ou expatriados que conheço estão ou fugindo de algo ou em busca de algo".


Aquela visão me impactou um tanto porque foi quando percebi que não me encaixava nessa maioria, e então também comecei a entender as raízes do meu receio em produzir conteúdos que não condizem com a minha realidade. Ele de fato se encaixava nesse grupo, e ouso a dizer que foi isso que separou a gente.


Pra começar, eu não acho que esteja fugindo de nada, muito menos em busca de algo. E é por isso que eu digo que não tenho vocação pra ser blogueira. Talvez eu tenha conteúdo pra isso, sim, mas não acho que é um papel que eu faria com louvor. Eu não tenho patrocínio pra nada, minha conta no Instagram não chega aos 1000 seguidores, e há uma vida inteira que administro entre um país e outro. Eu pago contas como todos meros mortais, preciso me desdobrar em fuso horários pra estudar e entregar serviços e não ganho absolutamente nada por ou para fazer o que faço.

Não foi pensando em ganhar nada que comecei e, pra falar bem a verdade, nem sei como comecei a viver assim. Sempre me perguntam da onde vem minha “coragem” de viver as experiências que vivo, de pegar carona no Sudão, viajar o Egito todo numa moto nada potente e que sempre quebrava, cruzar a fronteira pra Palestina ou pegar um trem da Tanzânia a Zâmbia que é famoso por nunca chegar. Minha resposta é sempre a mesma, não importa quem eu esteja respondendo: eu nunca vi isso tudo como algo que me requere coragem. Foi sendo constantemente questionada sobre essa coragem que eu nunca parei pra pensar que tinha que eu percebi a importância de refletir sobre isso. E eu quero que vocês entendam como eu vejo esse sentimento e como ele é completamente relacionada a fala que citei acima.


Eu quero muito ser mãe. Talvez eu queira ser professora de universidade também, acho que foi por isso que eu entrei no mestrado. Eu gosto demais do curso que fiz na faculdade e me identifico com ele, não sei se eu seria algo além de jornalista. Talvez professora, como eu disse. Eu sei onde estão minhas fontes de amor, energia e companhia, ainda que elas não estejam fisicamente comigo. Sei pra onde voltar, sei o quão disponível meu lugar no mundo está. Sei onde estão as portas abertas e acho que já entendi porque as fechadas se fecharam.


Há muitos anos eu cuido da minha mente, há muitos anos eu me apaixonei pela minha própria companhia. Meu processo de crescimento e a fase mais intensa dele foi no Brasil mesmo, e começou bem antes de eu sequer imaginar que seria possível estar tantos quilômetros longe de lá. Eu tenho uma pessoa, minha mãe, que é cais enquanto eu sou cruzeiro ao redor do mundo.


Eu tenho algumas certezas que já nutri, certezas emocionais e psicológicas, que me ajudam a estar em paz, na grande maioria das vezes. Eu me sinto perdida, sim, como todo mundo, em alguns aspectos. Mas eu não me sinto perdida na vida. Eu não rodo em círculos em busca de nada e fugindo de nada. O mundo não é uma potencial cura pra mim, muito pelo contrário: é vendo tanto dele que entendo cada vez como nós mesmo podemos ser cura. Pra gente, pro outro, pro universo.


Então eu acho que errei um pouco lá em cima. A grande verdade é que eu ganho – e muito – com esse estilo de vida. Ganho além de visualizações e dinheiro, ganho de uma forma egoísta: só eu sei o quanto ganho e o quanto esse ganhar me impacta. E difícil de explicar esse sentimento. Eu acredito que viajar, se expor e alimentar uma curiosidade insaciável pelos arredores da nossa existência é uma missão complexa, que exige muito mais que dinheiro.


A questão do dinheiro é importantíssima e eu tenho verdadeiro pavor de quem fala que “basta querer”. Não basta não, há privilégios, circunstancias e prioridades a serem consideradas, mas isso é papo pra um próximo texto. Fugindo dos números, eu acredito que viver viajando, se aventurar em destinos fora da roda e fazer coisas consideradas “corajosas” exigem muito amor próprio, muitas certezas e muitos ‘lugares pra onde voltar’, sejam eles representados por alguém, por um lugar físico ou por você mesmo.


É preciso um interior muito resiliente pra entender a diferença entre estar sozinha e sentir solidão. Apesar de constantemente sozinha, eu quase nunca sinto solidão, e é por isso que acho que não busco nada. Ver o mundo pra mim é dos mais simples processos. Eu não espero nenhuma resposta dele. E também não espero nenhuma salvação dele. Por isso nos conectamos tão bem, por isso não sinto a necessidade de policiar mais ou menos minha coragem de vê-lo. Ele está ali, eu também estou, então vamos juntos. Simples assim.


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