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  • Matheus Mans

Três motivos para assistir ao filme 'Em Trânsito'


1. História

Em Trânsito, logo de cara, tem uma sacada muito boa. Se passa na Europa dos dias atuais e, ainda assim, vê-se uma invasão nazista em curso. É como se a Segunda Guerra Mundial fosse transposta para a atualidade, sem estranheza. Nesse cenário, acompanhamos a história de Georg (Franz Rogowski), um homem que tenta fugir da França após a invasão nazista. Nesse processo, ele acaba roubando os documentos de um poeta morto e, quase sem querer, assume sua personalidade. E ele entra tanto no papel desse literato que, em determinado momento, acaba até se envolvendo romanticamente com a esposa do falecido. Ou seja: é um filme tipicamente kafkiano.

2. Distopia

Como já ressaltado, Em Trânsito se passa numa Europa moderna, mas mergulhada no nazismo. Dessa maneira, o filme acaba se tornando uma distopia, mas sem as características que fazem esse subgênero conhecido. Não há roupas e visuais extravagantes (Jogos Vorazes), não há comédia subversiva (Laranja Mecânica), nem é a adaptação de uma HQ ou livro infantojuvenil de sucesso (V de Vingança). É um distopia escrita e dirigida pelo ótimo Christian Petzold (Barbara, Fênix) e que foca num aspecto inédito para o gênero: a situação dos refugiados na Europa. A metáfora é fina, elegante, e consegue ter mais impacto do que obras que escancaram a crítica em cada cena.

3. Atuações

Num cenário tão diferente e diverso, é preciso que os atores estejam naturais para que o espectador entre de cabeça na história. E, boa notícia: Franz Rogowski (Victoria) e Paula Beer (Frantz) estão ótimos em seus papéis. Ele convence como um homem perdido, sem esperanças e sem identidade própria, que tenta sobreviver numa Europa que sai em verdadeira caça às bruxas -- ou, melhor, caça aos refugiados. Ela, enquanto isso, vai bem como uma mulher que não consegue lidar com o abandono. A culpa a rodeia a todo momento e isso, de certa forma, impede que ela prossiga sua vida com sua identidade.

Mas, porém, todavia, entretanto...

O filme é muito, muito bom. Mas nem tudo são flores. O texto de Petzold é exageradamente literário. Tudo bem, com certeza é proposital. Mas, em certo momento, foge do limite do aceitável. A coisa fica tão artificial que se torna difícil acompanhar o longa-metragem -- algo, afinal, que é necessário para que a história como um todo faça sentido. Não estraga o filme, longe disso. Mas deve diminuir o impacto para grande parte do público, que não se sentirá confortável com esse tipo estranho de narrativa.