• Matheus Mans

Trinta anos depois, 'Duro de Matar' ainda influencia gênero de ação


Foi no Natal de 1988 que o público viu, com olhar surpreso, um filme de ação chegar às maiores bilheterias da temporada. No papel principal, nada dos "brucutus" da época, como Sylvester Stallone ou Arnold Schwarzenegger. Pelo contrário: como protagonista, o banal e ainda pouco conhecido Bruce Willis -- que, até então, tinha estrelado apenas a série de comédia A Gata e o Rato e alguns filmes obscuros. Era Duro de Matar, produção comandada por John McTiernan (O Predador) que conseguiu mesclar comédia, cenas de ação tradicionais e um roteiro inteligente, claustrofóbico e extremamente desafiador.

Para quem nunca viu o filme, uma breve explicação sobre a história: John McClane (Bruce Willis) é um detetive de Nova York que está indo a Los Angeles para se encontrar com sua esposa (Bonnie Bedelia), que acabou de ser transferida de cidade por conta do trabalho numa empresa japonesa. As coisas se complicam, porém, quando terroristas comandados por Hans Gruber (Alan Rickman) invadem o local com o objetivo de realizar um grande roubo. Caberá à McClane, então, impedir que o crime aconteça enquanto tenta proteger a esposa e dezenas de outros reféns sob a mira dos perigosos bandidos.

O primeiro ponto que o filme ajudou a revolucionar no gênero de ação foi sobre a já mencionada fragilidade do protagonista. Até então, o público tinha visto homens que se aproximavam de máquinas, como Stallone em Rambo e Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro. Eram protagonistas quase invencíveis que deixavam claro, desde o primeiro minuto, que teriam triunfo sobre seus rivais. Bruce Willis, enquanto isso, causava algo oposto. Ainda que seu personagem fosse policial e tivesse um bom preparo físico, há fragilidade ao seu redor. McClane, durante grande parte do filme, está descalço, sangrando, se machucando. Apanha. Nem sempre obtém êxito em suas ideias.

É, ao contrário do que se esperava, um protagonista falível -- tipo de personagem que depois ganhou mais força em filmes como Missão Impossível, com Tom Cruise, por exemplo. Isso, de certa forma, amplia o público da produção e aproxima as pessoas da história. Afinal, não se espera apenas o sucesso. Tudo vem trilhado num caminho difícil, cheio de barreiras, e com dúvidas sobre a sua conclusão. É uma das melhores maneiras de aproximar o grande público do que está sendo contado. Mais do que cenas de tiros e explosões, Duro de Matar fala sobre a história de um homem tentando se superar.

Falando sobre esse quesito, o longa-metragem de John McTiernan também acerta e inova em questão de roteiro. Há um desenvolvimento claro e emocional do protagonista e, principalmente, há complexidade na forma de contar a história. Veja O Exterminador do Futuro, por exemplo. É tiro, porrada e bomba. Rambo, a mesma coisa. E de Conan, o Bárbaro e até 007. Em Duro de Matar, há um amor delicado e, principalmente, um humor sutil que vai se embrenhando na história. Mérito de Jeb Stuart e Steven E. de Souza, que conseguiram inserir os elementos na trama de modo natural e coeso, sem afetar o desejo geral do filme em impressionar nas cenas de ação e na pancadaria.

Isso sem falar, é claro, da ambientação do filme. Grande parte dele se passa apenas dentro do tal prédio e, para isso, é usada uma trama de ritmo crescente. Ao invés de parar em algum momento entre os três atos, a empolgação e o desenvolvimento da história só aumenta. Algo que, anos depois, Mad Max viria também a fazer muito bem.

Hoje, 30 anos depois, essas inovações trazidas por Duro de Matar ainda trazem influências claras nas produções de ação de Hollywood. Assim como O Iluminado moldou a forma de fazer terror e Star Wars a forma de fazer ficção científica, por exemplo, o longa-metragem protagonizado por Bruce Willis ajudou a dar novos rumos ao cinema de ação, que estava estagnado em tramas pouco delicadas, com os mesmos enredos e atores fora da realidade. Arranha-Céu, com Dwayne Johnson, foi um dos lançamentos deste ano que se inspirou claramente no filme com Willis -- ainda que os protagonista sejam díspares. O Protetor e a série Jack Ryan também foram pelo mesmo caminho.

Por isso, fica a dica: se quiser ver um bom filme natalino, não perca tempo e vá correndo assistir ou rever este clássico do cinema, muitas vezes esquecido ou subestimado. Merece muito mais louros do que recebeu e recebe até hoje, talvez por conta de suas continuações fracas -- com exceção de Duro de Matar: A Vingança, que surpreende com uma trama madura. Mas é importante reconhecer as bases da sétima arte e compreender como o cinema chegou em seu estágio atual. E sem dúvidas, Bruce Willis, Alan Rickman, John McTiernan, Jeb Stuart e Steven E. de Souza contribuíram para isso. Duro de Matar é um filmaço. Que merece o status de clássico do cinema.