Crítica: Com 'Reconstrução', Tiago Iorc volta mais intenso e maduro

05/05/2019

Tiago Iorc ficou um ano sumido. Ninguém tinha detalhes sobre a vida dele, apenas havia a informação de que o cantor e compositor estava repensando a carreira, descansando e vai saber mais o quê. Agora ele voltou de surpresa com o álbum Reconstrução, com 13 faixas inéditas e que mostra algumas pequenas mudanças na sua forma de fazer música. A voz continua melodiosa do mesmo jeito, as canções continuam falando sobre amores, desilusões, reencontros, desencontros. Mas tudo mais meloso e, bem, maduro.

 

O canção que abre o álbum já evidencia isso. Desconstrução -- que faz um paralelo pouco espirituoso com o título do álbum e, principalmente, com o clássico Construção, de Chico Buarque -- é lenta, acústica e ritmada. Parece que fala sobre esse sumiço de Iorc. "Quando se viu pela primeira vez/ Na tela escura de seu celular/ Saiu de cena para poder entrar". Tudo com uma levada suave, embalada por um bom violão. Pouca temática pop, e mais voltada para um som suave que Iorc fazia no início da sua carreira.

 

Curiosamente, depois da introspectiva música abre-alas, o disco entra numa série de canções genéricas sobre amor e reencontros, alternando entre baladas festivas (como na boa Fuzuê, na eletrônica Tangerina, na funk Faz e na latina Me Tira para Dançar) com canções de pegada bem mais tranquila, mas ainda na seara pop (como a interessante Hoje Lembrei do Teu Amor, a sensual Deitada Nessa Cama e, principalmente, a fraquinha Tua Caramassa). É uma mistura do que Iorc é e já foi.

De todas essas, dá para pinçar duas que podem ser boas músicas de trabalho do cantor e compositor -- que, apesar do lançamento, ainda mantém o mistério sobre seu paradeiro. Deitada Nessa Cama tem um interessante jogo de palavras e faz abertura interessante de piano. A letra deve encantar muita gente por aí. O refrão (Vamos fugir/ Eu e você/ Você em mim/ Simples assim/ Vamos sumir/ Desaparecer), além de ter a ver com a atual fase do músico, também é chiclete. Fica grudada na cabeça por um tempo.

 

A outra é Nessa Paz Eu Vou, que resgata ainda mais a essência de Iorc de sucessos como Coisa Linda Mais Bonito Não Há. Tem potencial de vida útil bem, bem longo.

 

No entanto, depois dessas canções sobre tudo e sobre o nada, Iorc parece que volta a falar de si mesmo nas duas músicas finais. Na acústica Bilhetes, ele fala que "tem que dias que parece/ que não vou conseguir/ o medo me persegue/ me impede de sentir". É bonita, bem musicada, e ajuda a elevar novamente o nível do álbum, dialogando com o sumiço do cantor. Fala sobre recomeços, reencontros, buscas por si próprio. É, em suma, a prova de um amadurecimento interior de Iorc. Não sumiu do mercado à toa.

 

E, por fim, na melosa e lentíssima Sei, Iorc mostra que tomou consciência sobre a vida e volta a evocar o caráter depressivo de sua última fase. É uma letra forte, intensa e que não havia sido percebida com clareza em nenhuma outra composição anterior. "Eu me perdi/ Sinto a minha falta/ Posso acreditar/ Fui além do céu e o mar/ Até achar/ Meu caminho/ Bem aqui/ Sempre esteve/ Na minha frente", conclui Tiago Iorc nos versos finais de seu disco. Precisa dizer algo mais? Iorc voltou e, por meio da música, está se reconstruindo. É desconstrução e reconstrução. Agora é aguardar o resto da jornada.

 

 

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