• Matheus Mans

As melhores e as piores leituras de 2018


Difícil fazer uma lista que defina os melhores livros de um ano. O Estadão foi o que melhor obteve resultados ao reunir a opinião de alguns repórteres, ainda que tenha ficado distante da realidade da maioria dos brasileiros. A Carta Capital e a Estante Virtual também fizeram uma espécie de retrospectiva do que melhor aconteceu na literatura ao longo do ano sem selecionar o melhor e o pior, apenas pontuando destaques -- opção esta, aliás, que se mostrou a mais acertada em listas de blogs e outros veículos que tentaram elencar principais lançamentos editoriais do ano.

Afinal, ao contrário do cinema, é difícil consumir absolutamente todos os lançamentos literários. Eu, por exemplo, consegui assistir 88% dos lançamentos cinematográficos do ano -- permitindo fazer, com certa propriedade, o ranqueamento dos melhores do ano. Difícil dizer, no mercado editorial, o que é melhor, o que é pior, o que é mais divertido, o que é mais surpreendente. Pode-se dizer, apenas, o que surpreendeu, o que arrebatou e o que decepcionou dentre as 117 leituras que realizei ao longo do longo ano de 2018.

Abaixo, então, meu ranking pessoal sobre as leituras do ano divididas por categoria -- por gênero, por superlativos, por surpresas, etc. E vale ressaltar que, apesar de privilegiar lançamentos do ano, considerei tudo que li. Alguns são de anos anteriores:

A leitura mais arrebatadora veio de um livrinho mirrado e tímido, editado pelo Grupo Editorial Record, que contém uma força impressionante ao longo de suas 166 páginas. Lupita Gostava de Engomar, da mexicana Laura Esquivel, conta a história de uma policial que vê seu superior ser morto na sua frente, sem deixar pistas do que aconteceu ou de quem foi. O que parece uma trama policial, porém, logo adquire aspectos dramáticos e distópicos impressionantes, que falam sobre toda a realidade da América Latina. Excelente livro que merece muito mais destaque do que teve. Resenha.

É triste dizer que um livro é o pior do ano -- a maioria das coisas, em sua essência, possui algum valor narrativo e podem servir de maneira satisfatória para outras pessoas. Mas não dá pra defender A Boa Filha, de Karin Slaughter. Apesar da escrita ser fluída, típica de uma autora best-seller, a trama é demasiada trágica para ter algum paralelo com a realidade. Tudo de errado acontece com a protagonista e o livro não vai para lugar algum. É só tragédia em cima de tragédia. Tropeço de Slaughter. Resenha.

O Pior dos Crimes tinha tudo para ser um dos piores livros do ano. Afinal, apesar de Rogério Pagnan ser um conhecido e respeitado jornalista, mexer e questionar com um dos crimes mais bárbaros cometidos no Brasil não é fácil. Mas Pagnan foi lá, cavou fundo na história da morte da pequena Isabella e descobriu vários fatores surpreendentes sobre a acusação de Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá. O livro é cheio de bons momentos, grandes investigações e traz dúvidas reais. Resenha AQUI.

A saga Executores, de Brandon Sanderson, se mostrou instável. Enquanto Coração de Aço, o primeiro livro, se mostrou surpreendentemente bom, o segundo volume decepcionou de forma amarga -- é o razoável Tormenta de Fogo, que apenas repete a receita da primeira história. Porém, Sanderson (da também boa Mistborn) recuperou a vitalidade e fechou Executores com chave de ouro com Calamidade, livro que vai além da trama de super-heróis malvados e cria um drama interessante, uma boa história de fuga e aspectos de ficção científica inesperados. Livraço e que eleva nível geral da saga.

Aqui não é um livro único, mas uma coletânea. Fractais Tropicais, editado pela SESI-SP, reúne o melhor da ficção científica já produzido no Brasil. É uma mistura única e muito rara de um gênero que ainda sofre muito preconceito por parte da "nata" editorial do País, infelizmente. Mas aqui, fica claro como há muita coisa boa sendo produzida por aí, mesmo que não chegue para o grande público. Ótima iniciativa da editora, excelente trabalho de organização e curadoria de Nelson de Oliveira e indispensável na prateleira.

Agatha Christie é uma das escritoras que mais inspiram respeito e admiração no meio literário em todo o mundo. Afinal, seus livros são porta de entrada para muitos e, ainda assim, pouco se sabe sobre a vida da inglesa. Este livro de Janet Morgan, reeditado pela editora Best Seller, responde todas as perguntas que fãs e admiradores possam vir a ter sobre Christie. É completo, é bem escrito e se destaca em um ano que teve poucas boas biografias. Crítica completa do livro de Morgan sobre Christie pode ser lida AQUI.

É sempre difícil encontrar livros e filmes que se complementem. Quando adaptados para os cinemas, geralmente, uma mídia faz a outra perder graça -- principalmente quando a pessoa vê o filme antes do livro. Não é o caso de Infiltrado na Klan, ótimo livro editado pelo Grupo Editorial Pensamento. Relato real do policial negro que, de certa forma, se infiltrou no grupo supremacista branco Ku Klux Klan e ajudou a desbaratinar um violento esquema de opressão. A obra literária complementa a experiência do ótimo filme, dirigido por Spike Lee, e ajuda a compreender melhor a situação. Resenha AQUI.

A decepção do ano não foi um livro em si, mas um conjunto deles. Melhor: uma empresa que se prontificou a entregar obras de qualidade, livros impossíveis de largar e coisas do tipo, mas que no final só decepcionou. É a TAG Inéditos. Clube de livros derivado do elogiado TAG, a caixa por assinatura prometia entregar livros em primeira mão pra que o leitor se deleitasse com bons entretenimentos. No entanto, a empolgação durou só três entregas. A qualidade era impressionantemente ruim com livros sem emoção, sem diferencial. Não deu. Resenhas das obras AQUI, AQUI e AQUI. Fuja do clube. É cilada.

A estreia do ano ficou a cargo de Geovani Martins, com a ótima coletânea de contos O Sol na Cabeça. Editado pela Companhia das Letras, o livro reproduz a oralidade típica e marcante das favelas do Rio de Janeiro com ramas inteligentes, reais e assustadoramente atuais. O melhor, porém, são os personagens de suas histórias, que se parecem com as pessoas que você encontra descendo do morro, pedalando na orla da praia e por aí vai. Promessa da literatura nacional dos próximos anos, sem dúvida.

A melhor ficção científica do ano também poderia estar na categoria de "Surpresa do Ano". Afinal, Os Seis Finalistas, do Grupo Editorial Pensamento, chegou de maneira silenciosa, sem muito estardalhaço, e conseguiu impressionar quem se aventurou por suas páginas. Espécie de Kingsman do espaço, a obra acompanha um grupo de jovens que precisam se destacar numa competição para, assim, ser um dos seis escolhidos para povoar uma das luas de Júpiter -- como no péssimo filme Titã. A diferença, aqui, é que a trama é leve, divertida e dá muita vontade de ler a continuação. Resenha AQUI.

O Livro dos Baltimore é uma das obras citadas aqui que não são, exatamente, de 2018 -- foi lançado no Brasil em 2016. Mas, ainda assim, só tive a oportunidade de ler agora. E que grande livro de Joel Dicker. Apesar de ter algumas facilitações narrativas oriundas da pouca experiência do autor, a obra é profunda, perturbadora e muito, muito real. Depois de ter seu trabalho chamado de literatura de banheiro por um escritor brasileiro, Dicker mostrou que cresceu e que afinou sua literatura, publicada no Brasil pela editora Intrínseca. Vale a pena conhecer a obra do suíço. Resenha completa do livro AQUI.

A jornalista Andrea Dip se debruçou sobre um tema difícil, complexo, arriscado e extremamente necessário para o debate político: a crescente força da bancada evangélica no Congresso Nacional. O livro, editado pelo Grupo Editorial Record, é cheio de dados importantes, boas análises e algumas descrições assustadores sobre os bastidores de Brasília -- complementando, e muito, o documentário O Processo, de Maria Augusta Ramos. Essencial, assim, para quem quer entender da política nacional e desvendar os próximos passos de tempos sombrios no Brasil. Resenha completa AQUI.