• Matheus Mans

Autor de 'Richthofen', Roger Franchini fala sobre literatura e reedição de sua obra


Bebendo da fonte de Rubem Fonseca (de Agosto), o escritor Roger Franchini gosta de brincar com os limites entre realidade e ficção no gênero policial, misturando histórias reais com tramas e personagens clássicos do estilo. E faz isso como poucos na atualidade, como se vê no reeditado livro Richthofen, onde imagina os bastidores do crime cometido por Suzane, em 2002.


Elogiada aqui no Esquina, a obra conta a história de um investigador que vê no crime a possibilidade de se manter na mesma delegacia, fincada no coração do bairro do Campo Belo. Ao mesmo tempo, ao seu redor e no seu dia a dia, pequenos delitos são cometidos no andar da investigação. Alguns buscam fama. Outros querem passar por cima. E assim as coisas seguem.


Franchini tem experiência de sobra nessas histórias. Advogado, trabalhou como investigador na Polícia Civil do Estado de São Paulo por seis anos antes de se debruçar na literatura policial. Conhece o funcionamento do órgão, assim como seus tipos e cenários. Consegue, dessa forma, passar uma verdade impressionante nas páginas de seus livros. É digno de nota. E de aplausos.


Afinal, é um tipo de literatura que infelizmente está sumindo das estantes de livrarias. Poucos autores no País, hoje, se dedicam a ficcionalizar histórias que permanecem encravadas no imaginário popular. Franchini é uma voz destoante desse meio e que dá um banho de força e originalidade ao gênero e à literatura do País como um todo. É preciso reconhecer casos assim.


Para entender melhor Richthofen e a história de Franchini, falamos com o escritor sobre o processo de escrita com o livro, assim como sua experiência. A conversa completa está abaixo.

Esquina da Cultura: Antes de tudo, me conta como foi o desenvolvimento de 'Richthofen'. Como foi para construir a narrativa? Entrevistou envolvidos no crime ou na investigação?


Roger Franchini: O livro é a segunda obra da coleção 'Grandes Crimes', publicada pela editora Planeta de Livros em 2011. O livro anterior, Assalto ao Banco Central, fez sucesso à época de seu lançamento e a continuação do projeto nos fez buscar outro crime que também havia causado repercussão na sociedade. A escolha pela história de Suzane Richthofen, portanto, foi automática. Não há outro personagem no meio criminoso atual com tanta força, capaz de provocar tantos sentimentos contraditórios no leitor. O poder de sua presença é curioso, haja vista a dimensão da repulsa pública demonstrada pelas pessoas nas redes sociais.


Penso que tamanho ódio é fruto de um sentimento inconfesso de identificação. Acredito que todo ser humano já teve pensamentos de desejo de morte direcionado aos genitores em algum momento da vida, mesmo que em silêncio. Constatar esse sentimento abstrato realizado no plano concreto por outra pessoa expurga a culpa por um dia ter passado  por aquela situação (mesmo que inconsciente). Uma menina linda, rica, de família tradicional, namorando um jovem pobre e sem futuro, resolve matar os pais para ficar com o dinheiro da herança em uma trama que envolve tabus como sexo entre adolescentes, drogas, ingratidão aos pais, violência doméstica e suspeita de corrupção entre políticos. É um enredo típico de uma tragédia rodriguiana, com todas implicações de psicologia abissal, mas transferido ao cotidiano paulista.


Em 2002, na ocasião do crime, eu trabalhava como investigador de polícia em São Paulo. Embora não tenha tido contato direto com as investigações, eu ouvia da boca dos colegas policiais, pelas copas das delegacias da capital, entre um café e um cigarro, relatos de disputa de vaidades entre equipes de investigação. Com essa definição, da desgraça de uma família e brigas entre policiais, eu vi um grande potencial literário que escapava da mera narrativa dada pela imprensa. Optei por não entrevistar os envolvidos, pois certamente o que me diriam não seria diferente daquilo que estava no processo judicial, desde o inquérito. Apenas colhi, entre os policiais envolvidos, diversas versões sobre a investigação e, ao mesmo tempo, fiz cópias integrais do processo para estudá-lo (que à época não estava sem segredo de justiça).

Para minha surpresa, os relatos das intrigas policiais, que antes não passavam de boatos sem fundamentos, evidenciavam-se na leitura do inquérito policial, documento por documento, na concatenação temporal e lógica das diligências. A história da Suzane, a partir de então, passou para o segundo plano do livro. Não havia nada sobre ela e sua família que já não houvesse sido contato antes pelas imprensa. O que permanecia em inexplicável era o modo como a investigação fora conduzida, de maneira não usual, por duas equipes. Essa crise não seria apresentada facilmente por eles, e eu também não estava disposto a expor nenhum colega.


O que fica para a história é o que está escrito, e formalmente, no papel, a investigação seguiu com rigor o que determina a lei. Para o público em geral, aquele que fica do lado de fora do balcão (jornalistas, advogados e curiosos), esses segredos são desconhecidos porque é difícil compreender a burocracia policial e como a grande política tem o poder de conduzir os rumos de uma investigação. E foi justamente esse aspecto pelo o qual me apaixonei. Por isso construí personagens investigadores e dei a eles a voz para contar a história que não foi transferida para o inquérito, com a oportunidade de mostrarem seu cotidiano, com todos os pequenos delitos que cometem para solucionar um crime. Esquina: O que muda agora para esta nova edição?


Roger: Quando o livro foi lançado pela primeira vez, minha vontade de narrar o cotidiano dos policiais paulistas era o que me movia. Àquela época eu não conhecia nada na literatura brasileira que retratasse o investigador como verdadeiramente é, com sua ética que parece caótica ao cidadão comum. Meu desejo era mostrar isso de maneira intensa ao público, como um manifesto. Hoje, após a experiência de ter escrito cinco livros, pude perceber que a grandiosidade destes personagens não está em sua rotina em si, mas na profunda humanidade que seus atos carregam. É são com esses olhos que alterei alguns parágrafos da obra original e corrigi erros que hoje considero injustificáveis. Talvez para o leitor essas alterações sejam irreconhecíveis, mas para mim são fundamentais. Além disso, há um capítulo novo onde faço algumas reflexões sobre as mudanças da percepção da sociedade sobre o crime e sobre a Suzane, e como isso impactou essa segunda edição. Esquina: A história do crime da família Richthofen está em alta novamente -- um novo livro foi publicado sobre o tema, um filme deve chegar em algum momento de 2020. Como você vê esse interesse contínuo na história do crime e na figura de Suzane?


Roger: A Suzane é uma espécie de condenada que nunca terá direito ao esquecimento. Onde ela estiver, da forma como viver, sempre será apontada como uma criminosa, independente de já ter cumprido a pena. As pessoas precisam de figuras públicas como ela, onde podem despejar seus anseios de flagelação. Tantos outros parricídios já foram cometidos desde então, se não mais violentos, ao menos semelhantes, e a repercussão nem de perto atingiu a fama dos Richthofen. O suplício grandioso especialmente dedicado a ela, de certa forma, nos conforta. Foi eleita para ser o objeto de uma dor inexprimível e eterna, equiparada ao que ela teria causado aos próprios pais. Acredito que expô-la em demasia é também uma forma de tornar seu corpo um meio de vingança pública, embora a justiça estatal não permita tal condenação. Ela é o que existe de mais nefasto em nós mesmos, por isso a adoramos e a odiamos. A queremos e a matamos tantas vezes.

Esquina: Seu livro se destaca por ficcionalizar em cima de um crime real, no Brasil. É um tipo de literatura que vemos pouco por aqui. Acha que há espaço para explorarmos mais? 


Roger: Hoje em dia é comum o gênero denominado de “true crimes”, muito mais no audiovisual, é bem verdade. No exterior é uma vertente de sucesso dos romances policiais, enquanto no Brasil há uma tradição de excelentes obras jornalísticas sobre crimes, mas que pouco desenvolvem o aspecto literário. Acredito que isso se deve, em grande parte, à postura do Poder Judiciário nacional, que costuma ser mais severo na proteção da imagem dos indivíduos, sobretudo quando envolve pessoas ricas ou políticos comprometidos com poderoso grupos econômicos. Não custa lembrar que somente há poucos anos nos foi permitido escrever biografias sem a autorização do biografado, mesmo que os fatos ali impressos fossem comprovados objetivamente. Contar uma outra versão da história, ficcionalizando o que já se estabeleceu como definitivo, é algo poderoso, um ato de resistência e luta, porque modifica a narrativa convencional da realidade e arranca o delicado manto mítico desejado pelos herdeiros dos personagens, transformando-os em humanos comuns, capazes de cometerem crimes em nome da ambição própria, além de deixar registrado para a eternidade que nem só de glórias viveu o biografado. Esquina: Quais seus novos projetos? Tem algo sendo desenvolvido?


Roger: Em cinco anos eu escrevi cinco livros, algumas obras foram feitas em três ou quatro meses, e ao mesmo tempo mantive um trabalho de oito horas diárias para conseguir pagar as contas da casa. Foi um período doloroso que custou parte da minha saúde e sanidade. Eu superestimei minha capacidade produtiva, por isso hoje sou mais cuidadoso com o tempo disponível para a literatura. Não me obrigo a metas e só produzo o que o momento permite. Há um livro que não posso dizer que já está pronto (porque para o autor ele nunca termina), mas tem um enredo finalizado que me agrada muito. Paralelamente, contribuí com roteiros de filmes e séries; alguns chegaram a serem produzidos, mas noto que o atual momento da arte brasileira é de expectativa diante de um inimigo poderoso que ameaça a existência das editoras. Não tenho pressa. Tenho é fúria.

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