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  • Foto do escritorMatheus Mans

Crítica: 'A Noite das Bruxas' traz visão surpreendente de Agatha Christie


Depois dos filmes de Assassinato no Expresso do Oriente e Morte no Nilo, é compreensível que as pessoas não estejam ansiosas para mais uma adaptação dos livros de Agatha Christie sob a batuta de Kenneth Branagh. Afinal, o britânico dirigiu filmes com grandes elencos, mas sem vida -- quase tudo é muito pasteurizado e batido. Por isso, é uma grande surpresa que A Noite das Bruxas, novo filme que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 14, seja tão acima da média.


Novamente dirigido por Branagh, que também interpreta o detetive Hercule Poirot, o filme começa com ele cansado, sem vontade de trabalhar. Está exilado em Veneza, na Itália, onde pessoas fazem fila na porta implorando para que ele solucione casos aparentemente impossíveis. Mas nada faz com que ele volte ao trabalho. Até que Ariadne Oliver (Tina Fey) entra em cena e implora para que ele participe de um último caso: a misteriosa morte de uma jovem, morta num dos canais da cidade, e que morava em uma casa aparentemente assombrada.


A partir disso, o longa-metragem desenvolve a trama mais diferente dos três filmes dirigidos pelo britânico nesse cenário de Agatha Christie. Pra começar, como o próprio título sugere, o filme é mais um terror do que um suspense. Há, é claro, toda a história de busca pelo assassino. No entanto, atrama trata de inserir elementos que invocam algo mais do que um mistério mundano: o roteiro de Michael Green (de pérolas como Logan e Blade Runner 2049, mas também de Lanterna Verde) insere questionamentos sobre fantasmas, Deus, vida e morte.


É uma discussão existencialista rara de se ver no cinemão norte-americano -- obviamente, fica alguns degraus abaixo do que encontramos em filmes do Bergman, por exemplo, mas raramente há algo parecido nas grandes bilheterias. Indício de que buscaram algo diferente.

Branagh, enquanto isso, brinca com sua câmera como nunca havia feito até então na saga de Agatha Christie. Ele adota um pouco de sua experiência shakespeariana no teatro inglês e coloca em prática aqui: confinados dentro dessa possível mansão mal-assombrada no meio dos canais de Veneza, durante uma forte tempestade, as tramas de traição e loucura apimentam o que surge na tela. Lógico que muito disso vem de Agatha, mas Branagh sabe valorizar o material.


A câmera do cineasta inglês, geralmente mais estática e sem muita graça, ganha nova vida mesmo tendo o mesmo diretor de fotografia de sempre, Haris Zambarloukos. As sombras são usadas para chocar e espantar, criando uma sensação constante de confinamento e de que há algo à espreita. Há até algo de Alfred Hitchcock aqui, com a forma que Branagh assusta a audiência com pássaros – nunca achei que pularia de susto com uma cacatua apenas voando.


Fica a sensação de que o cineasta se libertou de alguma amarra, de algo que o prendia em uma filmagem seca, sem graça. Ele entende, finalmente, que o segredo não está no elenco (que tem grandes nomes, como Michelle Yeoh e Jamie Dornan, mas fraco comparado com os outros), mas sim na forma que entrega a história: criando clima e gerando forte tensão. Bem acima da média.


Apesar disso tudo, na saída da sessão para a imprensa, ouvi algumas pessoas reclamando de cansaço, de sonolência. Faz sentido. com esse tipo de filmagem, seria interessante um roteiro mais ousado e criativo. Branagh subiu alguns degraus na qualidade de sua direção, enquanto Green permaneceu na mesma estrutura de sempre, talvez respeitando demais o texto de Agatha Christie – apesar das diferenças gritantes no final. Faltou mais de ousadia no texto final.


Afinal, depois de fazer um filme com discussões sobre morte, vida e fantasmas, é um pouco frustrante terminar a história apenas com uma resposta de "quem matou?". Poderia -- e deveria -- ter ido além. O fato é que, com isso tudo, fica a vontade de ver mais de Branagh. Imagina, com uma qualidade dessa, uma adaptação de Cai o Pano, o derradeiro de Poirot? Tudo pra dar certo.

 

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