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  • Matheus Mans

Crítica: 'Don't Fuck With Cats' é ótima série criminal da Netflix


É incrível como a Netflix tem habilidades com documentários sobre crimes em formato de série. O serviço de streaming já acertou em produções como O Desaparecimento de Madeleine McCann, Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy e a excepcional Gênio Diabólico. E agora, a Netflix volta a revisitar o formato com a desesperadora série Don't Fuck With Cats.


Dividida em três capítulos, com cerca de 1 hora cada um, a série documental acompanha o caso de um homem, inicialmente não identificado, que faz barulho na internet após postar um vídeo matando gatos com um aspirador de pó. O ato, é claro, desperta a ira de protetores de animais, que começam uma caçada ao rapaz. O que vem depois, porém, é ainda mais forte e chocante.


Afinal, o criminoso não se contenta com apenas esse ato de covardia e vai além. Posta mais vídeos matando gatos das formas mais cruéis possíveis. Até que... Bom, aí já é spoiler.


Mais do que ser um exame de um psicopata, Don't Fuck With Cats é um exercício impressionante de desenvolvendo de personagens e uso de narrativas da vida real em prol de reviravoltas, suspense e choque. Para isso, o talentoso diretor e roteirista Mark Lewis não se apressa. Faz com que o espectador se torne uma pessoa em choque com o que é visto na tela.


Um dos recursos mais inteligentes de Lewis é a utilização do relato de uma das protetoras de animais -- e uma das principais responsáveis pela caça ao criminoso -- como o fio condutor de toda a trama. Por mais que alguns pontos sejam claramente roteirizados, ela serve como guia ao espectador, sem a necessidade de narrador fora de contexto ou informações demais na tela.

E assim, ao mesmo tempo, não entrega demais antes da hora. É como se essa entrevistada, a programadora Deanna Thompson, estivesse sentada numa mesa de bar te contando a história. E com o acréscimo de imagens e recursos narrativos que só um documentário serial possibilita.


Além disso, vale ressaltar, Lewis não comete o absurdo de colocar os vídeos do psicopata na íntegra -- o que, também, poderia acabar afastando grande parte da audiência, sensível a conteúdos violentos ou de maus tratos. Tudo se limita a pequenos trechos. Apenas um, envolvendo um gato afogado, que é um pouco mais explícito. Mas sem nunca mostrar o ato.


Dessa maneira, o espectador quer sempre mais e mais e mais. As três horas passam voando, fazendo fãs de O Irlandês terem inveja. A vontade é nunca desgrudar da tela e saber onde tudo aquilo vai dar. Algo raro hoje em dia, quando as coisas estão cada vez mais líquidas e fugazes.


O único tropeço está na cena final. E quando digo cena final, é o último momento, de fato, antes da tela apagar e começar os créditos. A entrevistada-narradora, Deanna Thompson, quebra a quarta parede e dá uma lição de moral nos espectadores. É difícil entender o que Lewis queria com esse momento claramente roteirizado. Chega a ser embaraçadora a situação na conclusão.


Mas, ainda assim, Don't Fuck With Cats chega perto da qualidade de Gênio Diabólico -- até agora, a única outra produção da Netflix sobre crimes que teve a ousadia de fazer esses jogos narrativos ao mesmo tempo que prioriza a seriedade do tema. Sem dúvidas, se não fosse essa última cena, assumiria o trono. Vale a pena assistir, sofrer, refletir e, até certo ponto, se entreter.


Don't Fuck With Cats, afinal, mistura emoções e sentimentos. E é difícil sair da série incólume.

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