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  • Matheus Mans

Crítica: 'Miss Marx' é filme engessado, mas com boas intenções


A cineasta italiana Susanna Nicchiarelli é uma das realizadores mais originais dessa atual geração de diretores italianos. Afinal, conforme ela mostrou em Nico, 1988 e Cosmonauta, ela pega tramas geralmente formulaicas, como biografias e comédias, e mexe com a estética até torná-lo diferente, ousado, arriscado. É o mesmo que acontece agora com Miss Marx.


Exibido durante a 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o longa-metragem caminha pelos mesmos ensinamentos de Nico, 1988 ao falar sobre uma mulher com uma história potente de outros tempos. No entanto, agora nada de uma cantora roqueira. O foco, como o próprio título sugere, é a história de Eleanor Marx, filha do socialista e intelectual Karl Marx.


Nada, porém, de contar a história de maneira comportada, linear, óbvia. A diretora e roteirista Nicchiarelli opta por trazer um tom quase anacrônica, criando paralelos entre essa história tipicamente feminista de outros tempos para o feminismo de hoje. É impossível não traçar paralelos e ver a luta de Eleanor Marx ressoando ainda nos tempos atuais, de várias maneiras.

No entanto, para ressaltar ainda mais isso, a cineasta opta por colocar uma trilha sonora de rock'n'roll logo na primeira cena, e que acaba dando o tom de todo o restante da história. Além disso, busca não marcar tanto a época do longa-metragem, passado no final do século XIX. É a maneira que a cineasta busca em amplificar ainda mais a luta da protagonista-biografada.


Mas é impossível não notar, porém, que o roteiro segue um caminho óbvio e que vai na contramão do que a diretora faz na condução dessa história. Com uma atuação potente de Romola Garai, que rouba a cena, o filme parece que percorrer um caminho de falar sobre determinadas agendas, histórias, temas. Fica engessado dentro dessa proposta óbvia e boba.


Se a diretora tivesse libertado o filme e sua história, deixando-o correr ao saber do vento, seria muito mais saboroso, intenso, provocativo e marcante. Da maneira que ficou nas telas, é bom. Apenas bom. Não vai além disso e nem é tão interessante quanto seu antecessor na filmografia de Nicchiarelli. É um filme morno, com boas intenções, mas muito prejudicado por seu roteiro.

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