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  • Matheus Mans

Crítica: 'Pajeú' mergulha no esquecimento que vitima a natureza


Pedro Diógenes é um cineasta que fala sobre o entorno, o espaço urbano, o pertencer. Já trouxe reflexões sobre isso em Inferninho -- longa que rendeu uma boa entrevista com o cineasta aqui no Esquina -- e, agora, amplifica ainda mais o sentimento em Pajeú, estreia desta quinta-feira, 31, nos cinemas brasileiros. A produção começa com a protagonista Maristela (Fátima Muniz) de olho em uma criatura que surge no riacho Pajeú, importante fluxo de água de Fortaleza.


A partir disso, Diógenes brinca com o terror, o drama e o documentário para não só falar dessa relação de Maristela com o Pajeú, mas principalmente como o riacho ficou absolutamente esquecido e escondido conforme a cidade crescia e se impunha. Assim, Diógenes volta aos mitos das entidades que vivem nos rios para mostrar como esse elemento natural está doente, como a cidade o abandonou e, acima de tudo, como ele ainda tenta resgatar as suas forças.

É rico o cinema de Diógenes, com pretensões de provocar, instigar e causar estranhamento genuíno. Afinal, logo depois desse encontro inicial e da sensação de estresse da protagonista, o filme quebra o ritmo e, de maneira inteligente, abraça o documentário. Maristela vai entender quem é aquela criatura, quem é Pajeú. A narrativa serve Maristela, mas também serve ao espectador. Nessa via de mão dupla, com o didatismo deixado de lado, há um bom material.


Alguns pontos poderiam ter sido mais bem trabalhados, como é o caso de algumas atuações robóticas demais ou, ainda, algumas histórias que simplesmente são deixadas para trás conforme a trama avança. Resultado, talvez, dessa mistura de gêneros que torna tudo muito mais complexo e difícil. Ainda assim, destaque para o bom trabalho de Fátima Muniz (A Praia do Fim do Mundo), que soube contornar essas dificuldades e entregar uma personagem forte.


No fim da caminhada, apesar desses tropeços, Diógenes mostra que está amadurecendo seu cinema, suas reflexões, seu trabalho. Pajeú, apesar de bem localizado e falando especificamente de um rio cearense, vai além e mostra como o esquecimento é um processo quase que institucional no Brasil. Nos lembramos de esquecer. Nos esforçamos, às vezes, para esquecer. E, com isso, vai embora nossa História, nossas memórias, as pessoas e, até mesmo, nossos rios.


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