• Matheus Mans

Crítica: 'Privacidade Hackeada', da Netflix, expõe fratura democrática


Nos últimos anos, o mundo tem observado governos dando uma forte guinada para o extremismo e, por vezes, chegando ao autoritarismo. É o caso de Donald Trump nos Estados Unidos, Erdogan na Turquia, Duterte nas Filipinas, Boris Johnson no Reino Unido e, claro, Jair Bolsonaro no Brasil. Alguns especialistas apontam para o cansaço dos eleitores com a política até então vigente, outros com uma natural alternação de poderes. Mas, curiosamente, há um fato que parece ter desencadeado todas essas mudanças políticas: o vazamento de milhões de informações do Facebook em 2015.

Na época, descobriu-se que dados sensíveis de usuários da rede social estavam sendo direcionados para a Cambridge Analytica, uma empresa inglesa que traça estratégias de publicidade direcionada. Ou seja: essas toneladas de informações, precisas e pessoais, serviriam para que empresas pudessem mexer com o comportamento de clientes ao seu bel prazer. E pior: no caso do Brexit e da eleição de Trump, com ânimos de eleitores.

E é nesse assunto que se debruça o documentário Privacidade Hackeada, que acaba de chegar ao catálogo da Netflix com o selo de produção original. Dirigido por Jehane Noujaim (do excelente A Praça Tahrir) e pelo estreante Karim Amer, o longa-metragem traz informações detalhadas, e algumas inéditas de bastidores, sobre esse escândalo que manchou a imagem da rede social de Mark Zuckerberg e que suscitou discussões profundas sobre democracias, manipulação, valor dos dados e outras coisas do tipo.

E, felizmente, o documentário é um dos primeiros materiais realmente acessíveis sobre o tema. Ele mergulha profundamente no vazamento de dados e o que pode ser feito com tanta informação, mas também traz detalhes que ajudam o público a se situar e a entender como todo esse processo foi armado. Mesmo quem entende pouco de redes sociais ou do funcionamento geral da internet vai compreender como se deu a criação do escândalo de dados. Tudo é bem explicado e contextualizado antes do cerne central.

Quando vai além, a qualidade se mantém. Privacidade Hackeada -- que tem um título não muito interessante para o atual contexto brasileiro -- fala com os pilares desse escândalo. É a funcionária que cansou de ver os excessos cometidos pela Cambridge Analytica, é o rapaz que reclamou de como os dados eram usados pela primeira vez, são especialistas no tema, importantes ativistas digitais e a jornalista que vazou a história.

Além disso, o documentário deixa sua opinião muito clara desde o primeiro minuto de projeção. Encara o que o Facebook e a Cambridge Analytica fizeram como algo realmente criminoso e, inclusive, indaga como poderemos viver em um mundo de fato democrático depois do vazamento de informações tão valiosas -- será que é possível fazer eleições sem que sejamos influenciados? Algumas pessoas podem se incomodar com o tom quase ativista do longa-metragem, mas não poderia ser diferente. Aliás, nem deveria. Afinal, documentário podem ter lado, ter posição, ter opinião. É um diferencial.

A única coisa que incomoda um pouco, ao longo de seus 113 minutos, é a falta de um roteiro mais coeso, escrito por Amer, Erin Barnett (The Memory of Fish) e Pedro Kos (The Crash Reel). Há uma troca muito constante na maneira que a produção aborda o seu objetivo central, tornando difícil manter um acompanhamento emocional -- por vezes é a história do ciberativista David Carroll, em outras o foco é a delatora Brittany Kaiser e por aí vai. No final, a sensação é de que nenhum dos arcos foi concluído, de fato.

Mas, ainda assim, Privacidade Hackeada é um filme importante que surge nesse horizonte de fratura democrática. Mais do que explicar o escândalo envolvendo Facebook e Cambridge Analytica, o longa-metragem se propõe a fazer uma análise fria e necessária sobre os rumos políticos de hoje. Bolsonaro, por exemplo, foi eleito quando a Cambridge Analytica nem existia mais. Mas será que os dados, simplesmente, não flutuaram de um lugar para o outro? Afinal, ele venceu mesmo com fake news viajando pelo WhatsApp -- que, por sinal, é do Facebook. O que está acontecendo no mundo?

Tudo isso faz parte de uma mesma discussão que o documentário, muito espertamente, sabe tratar e amplificar. É moderno, é atual, é necessário. E junto com Democracia em Vertigem, também da Netflix, constrói um panorama assustador sobre nosso futuro.

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