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  • Matheus Mans

Crítica: 'Undine' é potente filme-fábula de Christian Petzold


Logo na primeira cena de Undine, novo longa-metragem do cineasta Christian Petzold (Em Trânsito, Bárbara), a personagem-título está conversando com um homem em um café. Claramente há tensão no ar. Traição? O romance está chegando ao fim. Só que, inesperadamente, Undine (Paula Beer) avisa: se o relacionamento acabar, ela terá que matar o rapaz. O aviso causa estranhamento, é desencaixado, mas faz parte da fábula por trás da trama.


Petzold, afinal, adapta aqui a história do mito Undine (Ondina), um espírito da água que se casa com um cavaleiro para ganhar uma alma. No longa-metragem, o cineasta e roteirista alemão coloca essa figura folclórica em um contexto contemporâneo: vive no mundo moderno e, quando traída por sua alma gêmea, precisa matar o rapaz e voltar para a água. É o fim de um ciclo que, apesar de Undine estar imersa em modernidades, ainda precisa cumprir certas tradições.


Só que as coisas saem do esperado quando a protagonista conhece um homem que pode ser chamado de alma gêmea: Christoph (Franz Rogowski). Os dois se completam: enquanto Undine saiu das águas e busca na superfície alguma concretude, o homem sai da superfície e busca nas águas o seu sustento -- ele é mergulhador especializado em reparos mecânicos. Esses símbolos vão se desenvolvendo ao longo do filme, completando a vida desses dois personagens.

Petzold, desta vez, segue um estilo parecido com o que apresentou no bom Em Trânsito: a partir da trama delimitada, ele vai trazendo símbolos, imagens e comentários para desnortear o espectador. Vários momentos causam confusão, justamente por conta de uma edição esperta, por embaralhar a temporalidade do assunto: cenas que se repetem ou momentos que acontecem no passado e, depois, acabam refletindo em acontecimentos futuros, sem ligação.


O cineasta ainda adiciona pitadas, e apenas pitadas, de fantasia dentro dessa realidade quase burocrática de Undine como uma guia histórica de Berlim. É o aquário que explode, a estátua que quebra como se fosse o destino. Há uma beleza poética, ainda que nem sempre compreendida, do que está acontecendo ali, nessa dança de Undine fugindo do destino e, do outro lado, a sina de sua personagem a perseguindo, a acompanhando. É bonito, intenso.


Por fim, há algumas coisas desencaixadas, assim como um exagero na desorientação geral. Mas tudo bem: a poesia feita por Petzold coloca este longa-metragem como um dos melhores e mais originais de 2021. É o cinema alemão em seu máximo, juntando a magia do cinema contemporâneo com a beleza do folclore. Que venham os outros dois filmes do cineasta falando sobre mitos, como ele já deu indícios. Se for tão bom quanto Undine, será uma trilogia histórica.

 

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