Buscar
  • Amilton Pinheiro

Mostra de São Paulo entra em "uma nova ordem"


Há trinta anos trabalhando na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, primeiro ao lado do marido, Leon Cakoff, falecido em 2011, depois sozinha como diretora, Renata de Almeida já passou por muitas situações difíceis. Uma delas, quando perdeu o maior patrocinador da Mostra SP, a Petrobras, chegou a pensar em cancelar o evento caso não revertesse o aporte financeiro perdido com a saída da estatal. Mas naquele ano, entraram outros patrocinadores, e o evento aconteceu sem maiores mudanças.


"Essas três décadas realizando a Mostra SP, ensinaram-me a lidar com os atropelos e a necessidade de redimensionar o evento conforme as mudanças impostas”, comentou, durante vídeochamada com o Esquina.


Ela disse que foi um ano difícil para todo mundo, um ano de exceção, extraordinário, por conta da Pandemia da Covid-19, que paralisou o mundo por meses e exigiu fechamentos de comércios, escolas, espaços culturais, etc, e o isolamento de pessoas em suas casas. Até maio, ela, que se diz otimista crônica, achava que ia poder realizar a Mostra SP presencialmente, por conta dos meses que separavam o evento, que acontece no mês de outubro, daquele momento.

Mas com o passar dos meses seguintes ela viu que não seria possível. A Mostra teria que ser pela primeira vez, na sua história, on-line, como tinha acontecido com festivais ao redor do mundo, Cannes e Berlim, e no Brasil. “Sabendo que não íamos poder fazer fisicamente, o desafio era arrumar uma plataforma que fosse confiável e não desse problema nas transmissões”, conta.


Como a maior parte dos filmes, que exibe na Mostra, são estrangeiros, Renata sabia que teria que ter uma plataforma já testada em outros eventos estrangeiros importantes, precisava disso para que as produtoras internacionais confiassem seus filmes a ela. “Aí resolvemos pegar uma plataforma europeia, mesmo com pagando um preço maior. Não tinha o que fazer. Ou era isso, ou não ia teríamos alguns importantes filmes, aqueles títulos tão aguardados pelos frequentadores da Mostra”, revela.


Mesmo assim, a Mostra SP não exibirá o vencedor de Veneza deste ano, que aconteceu em setembro presencialmente, o premiado Nomadland, de Chloe Zhao, protagonizado pela atriz americana Frances McDormand. Renata concorda que é a maior ausência da Mostra deste ano, que geralmente traz os vencedores dos principais festivais do mundo, como Cannes, Berlim e Veneza. “É nossa maior ausência, mas a distribuidora do filme tem outros planos para ele”.

Mas quem irá assistir aos filmes desta 44ª edição da Mostra, que começa hoje, 22, e vai até 04 de novembro, terá no cardápio ao todo 198 títulos estrangeiros e nacionais, um menu diverso e saboroso para saciar qualquer apetite exigente de cinéfilo, até mesmo os mais tradicionais (veja a programação completa no site da mostra: www.mostra.org.br).


A Mostra não será totalmente on-line, alguns filmes serão exibidos no drive-in do Belas Artes no Memorial da América Latina e no do Sesc Parque Dom Pedro II, mas os 198 títulos podem ser adquiridos no site da Mostra ao preço de R$ 6,00, cada. Mas tem que correr, pois alguns títulos esgotaram rapidamente por conta do limite de acesso de 2 mil para cada filme.


Nos últimos anos, segundo Renata, a Mostra tem dado uma atenção especial aos filmes brasileiros, procurando títulos inéditos, pelo menos em São Paulo, dos mais de 140 filmes realizados anualmente, claro, antes da catástrofe do governo atual, que paralisou a Ancine e consequentemente nossa produção nacional. “Vamos exibir 36 longas, contando com alguns do diretor Fernando Coni Campos, e parte dessas produções são de novos realizadores, com no máximo dois filmes. O que nos deixa muito satisfeitos”, diz.

Como acontece todos os anos, perguntamos qual o filme que Renata indicaria dos 198 que a Mostra vai exibir. A difícil tarefa de citar penas um, qual seria? Ela não pensa muito, e responde. “Sem dúvida Nova Ordem [filme polêmico do diretor mexicano Michel Franco que recebeu o Grande Prêmio do Júri do Festival de Veneza deste ano]. Sei que é um filme forte e até um pouco indigesto para alguns. Mas não tem como fechar os olhos para brutal desigualdade social ao redor do mundo, especialmente aqui América Latina e no México, onde a história acontece”.


O filme será exibido hoje, para convidados, a noite no drive-in do Belas Artes no Memorial da América Latina, abrindo oficialmente a 44ª edição da Mostra deste ano, sendo um dos mais aguardados pelo público.


Serviço:


44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Data: 22 de outubro a 4 de novembro

Com exibições em streaming e sessões presenciais no Belas Artes Drive-in (Memorial da América Latina) e no Cinesesc Drive-in (unidade Sesc Parque Dom Pedro II)

As plataformas Spcine Play e Sesc Digital fornecerão acesso gratuito a 30 títulos. Para ver os filmes da seleção da 44ª Mostra, o espectador deve entrar no site www.mostra.org

Ingressos a R$6,00.

#Matéria #Reportagem #Cinema #Mostra2020 #MostraInternacionaldeCinema #CoberturaEspecial