• Matheus Mans

Ponto Edita apresenta obra de escritor argentino inédito no Brasil


“A incerteza de que podia dar tudo errado, com alguma chance de acabar tudo bem.” É assim que o músico e ex-VJ da MTV Luiz Thunderbird refere-se a Desvio, do argentino Juan Francisco Moretti, no texto que escreveu exclusivamente para a edição brasileira. O livro inaugura o catálogo de contemporâneos da Ponto Edita, que já trouxe para o Brasil obras inéditas de Willa Cather e Gertrude Stein. Apontado pelo “La Nación” como uma contribuição ao grande romance coletivo que está sendo escrito pela nova geração de autores argentinos, “Desvio” é um remix de humor e drama que narra a epopeia mais trivial de uma geração: a que nasceu ou cresceu nos anos 90, com a MTV e a internet dial-up. 


Essa capacidade de espelhar uma geração, aliás, leva o cantor Thiago Pethit a traçar, em sua intervenção artística, um paralelo entre Desvio e o clássico moderno O apanhador no campo de centeio — afinal, o protagonista, Nicolás, é filho de nossos tempos, mas poderia muito bem ser Holden Caulfield, de J. D. Salinger, ou Molloy, de Samuel Beckett, navegando pelo século 21. 


Em um misto da agressividade desaforada de Chuck Palahniuk (Clube da Luta) com a ironia cáustica de Bret Easton Ellis (Psicopata Americano), Desvio explora os limites de realidade e delírio e convoca o ritmo da oralidade para tratar de temas delicados, como eutanásia e violência urbana, e mostrar, com lirismo brutal, que o papel da arte nem sempre é o de confortar.


Escrito a partir do ponto de vista do protagonista, o texto ágil e forte do romance de estreia de Juan Francisco Moretti, poeta oral de reconhecimento ascendente na cena literária portenha, acompanha alguns dias na vida de Nicolás, um típico jovem argentino dos anos 2000, pós-moderno, culto, progressista, apegado às redes sociais, ao Google e ao smartphone e que se vê às voltas com a degradação do amor, da memória e das grandes paixões. 


Como na fórmula marxista, tudo que é sólido em volta de Nico se desmancha no ar. Depois de ser agredido por um skinhead no Desvio, bar onde trabalha, ele é tragado por uma onda de acontecimentos violentos: sua tartaruga de estimação é atacada por um gato, um amigo é agredido e a vida de seu patrão muda de uma hora para a outra. Diante desses infortúnios, Nicolás começa a questionar as relações familiares, a velhice e a possibilidade de evitar o sofrimento dos inocentes em um mundo sem piedade. 


Como reflexo de uma cena interior fragmentada, a Buenos Aires em que se passa a trama lembra uma versão industrializada e gentrificada da São Geraldo imaginada por Clarice Lispector. Esse ambiente urbano hostil acaba por exigir de Nico uma transformação em sua aventura de viver, como acontece nos romances de Salinger ou de Beckett.


A edição foi traduzida por Thaís Soranzo, mestre em Teoria e História Literária pela Unicamp e, além das intervenções artísticas originais de Thiago Pethit e Luiz Thunderbird, traz uma nota do autor e uma série de imagens criadas pelo artista Pedro Monfort a partir da intervenção em fotografias originais de Buenos Aires. Impressas em preto puro, as imagens contrastam com o texto em pantone verde e criam uma narrativa paralela.


A tipografia faz uma homenagem à filosofia do mercado editorial independente argentino. A escolha do tipo mono para os títulos e para a numeração das páginas, aliada ao uso pontual de marcas gráficas como underline, barra e chevron, remete aos primeiros anos da popularização da internet dial-up e faz referência à relação do personagem com a passagem do tempo. Lançado com quatro capas diferentes, o projeto gráfico original da Ponto Edita tem encadernação em capa dura com papéis especiais e impressão em serigrafia.

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