• Matheus Mans

Qual a explicação e o significado por trás de 'A Casa que Jack Construiu'?


* O texto abaixo contém spoilers sobre a trama de 'A Casa que Jack Construiu'. Se ainda não viu o filme, melhor ler a crítica e voltar aqui depois.

Lars Von Trier não é um cineasta de fácil absorção. A maioria de seus filmes conta com profundas e intrincadas metáforas ao longo de sua narrativa -- mais recentemente, Anticristo foi o longa-metragem que exponenciou ainda mais essa forte característica de seu cinema. Agora, acaba de estrear o filme A Casa que Jack Construiu. Ainda que muitos procurem a produção por conta da chocante violência, há a maioria das características fílmicas de Von Trier, como personagens de extremos, diálogos afiados e, é claro, uma alegoria que permeia e que aprofunda toda a história.

A Casa que Jack Construiu começa de maneira mansa, ainda que já violenta. Dividido em cinco momentos diferentes da vida do psicopata Jack (Matt Dillon), o longa-metragem logo mostra o protagonista em ação ao matar a irritante personagem de Uma Thurman. A partir daí, começa a violência desenfreada e que não está ali só para chocar. Num primeiro momento, há a transposição de aspectos básicos da personalidade de Jack para a matança. Afinal, ele é um artista -- que constrói e reconstrói sua casa -- e que faz quase o mesmo com corpos. É o rapaz que vira estátua, as poses para fotos e por aí vai.

Isso, em determinado momento, se torna sincrônico à construção da própria casa. A insatisfação que acontece nos alicerces que são erguidos no terreno baldio se refletem na insatisfação dos assassinatos, que vão ficando mais e mais cruéis de acordo com o avanço planejado da narrativa -- e que não precisa ser, necessariamente, linear. Isso é só a preparação para a casa dos sonhos de Jack, feita de sua verdadeira arte e por meio do material-base com o qual ele realmente se entende: corpos humanos organizados brilhantemente por sua mente doentia. É a mostra que, pra ele, não existe mundo ideal, perfeito, banal. Tudo ali na mente e na vida do protagonista é doentio -- até sua casa.

A partir daí, Lars Von Trier -- que também assinou o roteiro, como sempre -- começa a expandir ainda mais sua alegoria pela trama. Enfim com sua casa construída, mas com corpos, ele acaba se encontrando com Virgílio (Bruno Ganz), o poeta romano que guia Dante pelo Inferno. E é exatamente isso que acontece: como num sonho, Jack começa a fazer um tour completo pela casa do demônio, como acontece no clássico romance. Para deixar tudo ainda mais visual, Jack ainda está vestido com a clássica indumentária vermelha de Dante, como é possível ver na clara comparação imagética abaixo.

Neste ponto, há uma explicação mais factível para o que acontece -- já que Von Trier ainda não deu uma explicação final e, muito provavelmente, nem deve dar. A principal é que aquilo faz parte da imaginação de Jack, da mente de Jack. Afinal, conforme ele foi matando pessoas, foi construindo seu próprio inferno, sua "própria casa". As mortes que são contadas por Von Trier no filme, aliás, até correspondem com alguns dos círculos do Inferno de Dante -- o da senhora que se interessa por aumentar a aposentadoria ao quarto círculo, dos avarentos; e o da "namorada", luxuriosa, ao segundo círculo infernal.

Prova de que tudo aquilo ali é imaginação reside no frame final, quando a imagem do buraco final do inferno ganha cores contrastantes, em negativo, como Jack demonstra ter interesse numa das inúmeras conversas que ele tece durante a narrativa. Por qual motivo isso aconteceria se não fosse a própria mente de Jack se perdendo em suas profundezas? Qual o sentido de uma trama tão fincada no real ganhar esse contorno?

E o que teria causado esse estalo em Jack para, enfim, conhecer "sua casa", a qual ele procura incessantemente durante a jornada mostrada no filme? Nos últimos minutos do filme fincados na realidade mostram o protagonista em total desespero. O seu principal projeto, que é o mais escandaloso e chocante até então, não está dando certo por problemas estruturais (a falta de uma bala específica para acertar várias cabeças de uma vez) e o seu mundo perfeito parece estar ruindo -- um homem quase o captura em certo momento, inclusive. É o momento que Jack vê que precisa se refugiar no seguro.

Muitos ainda apostam que Jack morreu e que aquilo que se desenha na tela é o inferno de fato -- até mesmo por Von Trier sempre prezar pela realidade, ainda que tenha se permitido a exageros nos últimos tempos. Explicação plausível, mas pouco possível.

Afinal, o longa-metragem é um mergulho detalhado, seguro e controverso na mente de um psicopata. O espectador nunca vê o lado das vítimas, nunca observa aquela situação toda de maneira neutra. Há, sempre, a amostragem de Jack, que conduz a narrativa com Virgílio. No entanto, é um mergulho muito superficial, apenas no factual. Lars Von Trier só vai além nos 20 minutos finais, quando de fato mergulha na casa, na segurança do protagonista e, assim, encontra um inferno tal qual o de Dante. Mais do que uma alegoria, A Casa que Jack Construiu é um mergulho factual e lírico na mente de um psicopata como, até agora, nenhum outro filme conseguiu fazer. Grande filme de Trier.

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