• Matheus Mans

Resenha: 'Das Cinzas de Onira' é emocionante fantasia nacional


Um dos principais subgêneros da literatura americana, a fantasia juvenil ainda encontra dificuldades para emplacar de vez no Brasil. Vasculhando a memória, é possível lembrar das obras do casal Carolina Munhóz e Raphael Draccon, de algumas empreitadas de André Vianco e do criativo Affonso Solano. Mas agora um novo nome engrossa essa lista: Umberto Mannarino.


Reconhecido youtuber de educação, Umberto é o autor de Das Cinzas de Onira. Com ares de Crônicas de Nárnia e Coraline, o livro se debruça sobre a triste e interessante vida de Olívia, uma garotinha que perdeu os pais e a irmã num incêndio e que sobreviveu se escondendo na lareira de casa. Depois, ela vai morar com os tios enquanto tenta reconstruir a sua memória.


É nesse meio tempo que, sem querer, a garota de cabelos ruivos encontra uma passagem para o mundo de Onira. Lá, ela irá encontrar criaturas fantásticas numa caçada intensa aos fantasmas, seres que assombram alguns moradores deste mundo. Acompanhando sua jornada, ainda está um boneco de pano, um homem-sardinha, a Fênix e pequeninos soldados bravos e destemidos.

Onira não é só um pedaço de terra. Ela é viva. Ou melhor: era viva. Agora ela só sobrevive. E por um fio.

O que poderia soar pouco original nas mãos de um escritor pouco inspirado, pela semelhança da trama com outras histórias que já ouvimos por aí, ganha contornos criativos nas mãos de Mannarino. Mais do que uma jornada vazia e meramente fantástica, Das Cinzas de Onira ganha força ao traçar paralelos entre a imaginação da pequena Olívia com a tragédia em sua vida.


Dessa forma, a história ganha diversas leituras e interpretações. Pode ser uma jornada juvenil fantástica e colorida, servindo para os leitores pequenos. Ou, ainda, pode ser uma história que colore a vida de Olívia, reduzida às cinzas, com um tom mais juvenil. O fato é que Das Cinzas de Onira é literatura saborosa, com camadas, e que pode ser descoberta aos poucos na leitura.


Além disso, vale destacar o cuidado com a edição do livro. Com ilustrações convidativas de Esdras Gomes, não é uma diagramação que poda a imaginação. Pelo contrário: a aguça.

O maior abismo que Olívia já tinha visto descortinava-se à sua frente. [...] Uma grossa camada de teias de aranha tomava conta do chão, cobrindo a terra de uma superfície branca, quase transparente, como uma película de filme plástico.

Os personagens também ajudam nesse mergulho à literatura de Mannarino -- que, por ter experiência na área de educação, sabe escrever sem se enrolar e sem soar prepotente. Olívia é humana, verdadeira e seus dilemas são sentidos conforme as páginas avançam. O Major F e o Sargente divertem e aliviam a emoção carregada e profunda da protagonista desta história.


No final das contas, após desbravar a magia de Onira e suas 256 páginas, encontramos um livro maduro, com camadas, e com uma história que se vale da boa linguagem da literatura fantástica jovem para ensinar, fazer compreender e emocionar. Mannarino engrossa o time de escritores fantásticos brasileiros e mostra que o gênero vai ganhar força total no futuro próximo. Promete!

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