• Matheus Mans

Resenha: 'Desejo' é livro interessante, mas artificial de Clóvis de Barros Filho


Na contracapa de Desejo, o professor, pesquisador e filósofo Clóvis de Barros Filho alerta: "nem filosofia, nem poesia. Menos ainda o resto. Nada de sociologia, antropologia ou psicanálise. O livro fala de desejos". E essa é uma ideia perpetuada ao longo de todas as mais de 200 páginas da obra. "Não é filosofia", "é um livro sobre o dia a dia", "é um livro popular", gritam as palavras.


E nas primeiras páginas, Clóvis tenta repetir isso ao máximo. Coloca um trecho de Evidências, clássico de Chitãozinho & Xororó, como o título do primeiro capítulo. Mostra como é humano. Repete, várias vezes, como está falando sobre aspectos mundanos da vida. Dessa maneira, Desejo parece o livro para todos e sobre todos. Uma obra, afinal, que todos podem e devem ler.


No entanto, ao avançar sobre a leitura, Desejo indica uma distância enorme entre objetivo e realização. Por mais que Clóvis de Barros Filho, claramente, tenha boas intenções em fazer com que um público amplo entre em contato com sua obra, sua escrita não é popular. É difícil, em alguns momentos, de ser decifrada. Há muitos floreios. Parcas ideias ganham várias páginas.


Afinal, não é a letra de uma música sertaneja ou a referência de uma série que faz o livro ser popular. É preciso ter ideias claras, escritos claros. Ordenamento de ideias. Isso não ocorre.

Dessa maneira, há um conflito. Clóvis de Barros Filho, sem dúvidas, desejou escrever um livro popular. Mas, assim como vários estigmas e situações que aponta na obra, não conseguiu atingir o objetivo. E é uma pena. Afinal, se ele não tivesse apostado nesse tom popularesco e assumido o tom de sua escrita e de seus pensamentos, Desejo seria um obra ainda mais interessante.


Apesar disso, por mais que não haja sintonia entre o objetivo e o que é visto nas páginas, o livro de Clóvis de Barros Filho traz aspectos profundos, reflexivos. Uma exemplificação usando a filha dele como ponto de partida -- se aproximando do bolo, se afastando do remédio -- traz uma ilustração perfeita para a temática de um dos capítulos. Ele domina esse tema como poucos.


Além disso, trechos de alguns poemas casam perfeitamente com o que a obra deseja contar. Há, claramente, um bom conhecimento sobre literatura e como isso conversa com o assunto.


O mais interessante, porém, é chegar às últimas páginas. Clóvis de Barros Filho, como um grande conhecedor das letras e do tema, faz com que o leitor mergulhe em sua própria mente e faça uma reflexão pessoal e íntima a partir de tudo que aprendeu no livro. É um exercício literário interessante, raro de ser encontrado na literatura. Desejo, assim, fecha lá no alto.


Em resumo, Desejo é um livro de filosofia, sim. É um livro de psicologia. É um estudo antropológico, social. É tudo isso, menos uma obra popular. Estranho Clóvis de Barros Filho ter apostado nesse caminho. Parece que quer se aproximar cada vez mais de Mário Sérgio Cortella, Leandro Karnal. Mas isso é besteira. Clóvis é mestre no que diz. Basta seguir o seu caminho.

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