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  • Matheus Mans

Resenha: 'Pacientes que Curam' é livro que humaniza a medicina


É estranho, e até um pouco perturbador, perceber como a medicina está em um constante processo de desumanização. Ao invés de conhecer e entender cada um de seus pacientes, médicos ao redor do Brasil (e talvez do mundo, quem sabe) acabam focando em problemas que não traduzem exatamente o que aquela pessoa está passando. Recorrem à remédios, e só.


Por isso é tão bem-vinda a leitura de Pacientes que Curam: O Cotidiano de uma Médica do SUS. Escrito por Júlia Rocha e editado pela Civilização Brasileira, o livro acompanha a jornada de Júlia como médica de família em uma única básica de saúde em Minas Gerais. Atende pessoas pobres, muitas vezes em situações limites, que veem a saúde escorrer entre os dedos.


Dessa forma, a médica-autora fala sobre pacientes que passaram pro seu consultório, mostrando o que cada um lhe ensinou e o que pode ensinar para nós, leitores, a partir de suas experiências de atendimento. Não vemos apenas uma médica passando receitas por aqui. Vemos uma profissional dedicada, interessada em saber o que cada um deles está passando.

Ao longo de quase 300 páginas, dessa forma, vemos de tudo. Mulheres que sofrem abusos, crianças assumindo as responsabilidades de casa, idosas que mostram como a amizade e o amor são a chave de tudo. É um livro inspirador, por um lado, e também reflexivo. Afinal, somos apresentados à essa realidade enquanto também pensamos na nossa vida, na nossa saúde.


Júlia, como autora, se destaca. Tem alguns cacoetes narrativos que às vezes incomodam, como a forma frequente e insistente de descrever a pele negra, por exemplo. Ou, ainda, a insistência em terminar vários dos relatos com uma espécie de elogio à ela própria, como se desse um tapinha nas costas. No entanto, isso é coisa pequena quando pensamos na força desse livro.


Pacientes que Curam chega em um momento importante, em que o SUS é insistentemente atacado por neofascistas que ocupam Brasília — mesmo com a vacina contra a covid-19 sendo distribuída por esse mesmo sistema. Aqui, assim, temos um sopro de esperança em relação ao nosso futuro. E, também, orgulho. Torço que haja mais Julías por aí para mais brasileiros.

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