• Matheus Mans

Resenha: Paulo Freire discute bases da educação em 'Partir da Infância'


Por mais que conservadores e reacionários queiram destituir Paulo Freire de seu trono, ele é e sempre será o patrono da educação brasileira. Dono de uma didática excepcional, utilizada através dos países, o educador e filósofo pernambucano construiu alguns dos principais e mais fortes alicerces da educação brasileira. Olha mais para o indivíduo, do que para os rituais.


Agora, o Grupo Editorial Record lança uma nova edição de um livro saboroso, mas infelizmente menos conhecido do que os clássicos do educador: Partir da Infância. Transcrição de diálogos entre Freire e o pedagogo Sérgio Guimarães, o livro convida o leitor a embarcar na dialógica de Paulo Freire e, assim, entender melhor seus pensamentos, suas análises e suas percepções.


Ao longo de quase 200 páginas, a dupla disserta sobre temas caros até os dias de hoje, como autoritarismo na escola, busca pela disciplina, falta de preparo, política educacional e, até mesmo, formas de incentivar a criatividade dos alunos. Por mais que o cenário tenha se transformado levemente nos últimos anos, é algo que continua atual e de discussão relevante.

O mais interessante de Partir da Infância, porém, está em algo inesperado: nas colocações de Sérgio Guimarães. Ainda que primeiramente haja a impressão de que ele irá apenas conduzir a fala e os pensamentos de Freire, o pedagogo acaba se revelando peça essencial no livro. Com vasta experiência na educação infantil, ele sabe traduzir tudo o que o pernambucano diz.


Num momento particularmente brilhante, por exemplo, a dupla está discutindo sobre como impôr limites sem podar a criatividade. A fala de Freire já é brilhante. Mas aí Sérgio dá o grande arremate e conta a história de uma vez em que deixou as crianças, da sala de aula que ensinava, sem limites. Deixou que elas percebessem o seu redor. Pronto: vimos a teoria ali, na prática.


Isso dá uma substância e um teor mais prático ao livro, raro em obras clássicas do filósofo pernambucano como Pedagogia do Oprimido. Saem dos campos das ideias para o bê-a-bá.


Partir da Infância, assim, é um livro essencial para quem já se aventurou nas letras de Paulo Freire e, agora, quer se aprofundar na figura e nos pensamentos deste homem tão intenso, inteligente e de conhecimento profundo. E ainda mais com a figura de Sérgio ao seu lado, dando o concreto e o palpável aos leitores. Uma experiência completa e que só engrandece.

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