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  • Matheus Mans

Resenha: 'Primeiras Estórias' é introdução desafiadora à Guimarães Rosa


Que amedrontadora e desafiadora é a tarefa de escrever sobre Guimarães Rosa. Ao lado de Machado de Assis e Graciliano Ramos, acredito eu, forma a santíssima trindade da literatura brasileira. E Guimarães ainda tem um sabor a mais. Seus neologismos, complicados e estudados nos bancos da escola, dificultam e dão um toque mais à sua profunda literatura.


Profunda, sim. Afinal, ler Guimarães é ler o interior do Brasil -- e que pode ser que nem exista mais. É sentar numa mesinha de madeira, no fim da tarde, e comer um café coado observando a natureza, a vizinhança, a vida. Ler suas histórias é entender as várias facetas do Brasil profundo e entender quem somos nós, brasileiros. Ainda mais neste potente livro Primeiras Estórias.


Como o próprio título diz, a obra mergulha e apresenta contos iniciais da carreira do mineiro, morto na década de 1960. É uma reunião de 21 histórias, todas elas partindo de um ponto simples, aparentemente banal. Coisas do cotidiano, da vida. A partir disso, porém, Guimarães coloca verniz de boa escrita, imprime seu estilo e faz dessa leitura um desafio e uma aventura.


Eu, particularmente, optei por saborear a obra aos poucos. Até comecei me atrevendo a ler tudo em um solavanco, de uma vez só. Mas não dá. Assim como Grande Sertão: Veredas e Sagarana, é preciso degustar a obra do escritor mineiro e senti-la aos poucos. Entender o que o autor quis dizer com algumas passagens, compreender seus personagens. E, acima de tudo, viver aquilo.

Guimarães Rosa não escrevia para ser lido. Escrevia para desafiar e ser desafiado, para compreender e ser compreendido. Seja a história do menininho viajando (As Margens da Alegria, primeiro conto da coletânea); causos interioranos (como no delicioso O Cavalo que Bebia Cerveja, com as melhores descrições); ou histórias simples e poderosas (a triste Fatalidade).


Lembra um pouco o livro Alexandre e Outros Heróis, que falamos recentemente aqui no Esquina. Há uma mistura de uma narrativa artística com causos que viajam de boca a boca, de caboclo a caboclo. É a eternização desse Brasil dos campos, das roças, das florestas. O Brasil da mesa de café da manhã de madeira com o café coado, que tanto imagino estar lendo o livro.


Primeiras Estórias, assim, é um bom livro de entrada ao universo de Guimarães Rosa -- ainda que não seja, nem de perto, um bom livro de entrada à literatura por conta dos desafios de sua narrativa. São escritos intrincados, complicados. Cada página é para ser saboreada como um capítulo. Cada conto, como um livro. Só assim é possível imaginar aquilo tudo acontecendo.


Enfim, Primeiras Estórias é tudo aquilo que se espera de Guimarães Rosa, da literatura brasileira, de uma literatura profunda e desafiadora. Não é fácil de ser decifrada. E é totalmente compreensível se a leitura não for "pra hoje". Espere um pouco, dê tempo ao tempo. A literatura do mineiro tem que ser sentida. E é preciso estar preparado para este bom desafio.

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