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  • Matheus Mans

Resenha: 'Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi' é forte autobiografia


O começo de Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi não é fácil. Lento e de escrita bem detalhada, o livro conta a história da infância de Joachim -- ou seja, o próprio autor Joachim Meyerhoff. Ao contrário de qualquer amigo ou conhecido, o protagonista não vive em uma casa normal. Ele mora em uma residência dentro de um hospital psiquiátrico infantil.


É a própria história de Josse, como ele também é chamado, que precisou lidar com esse novo e estranho ambiente por conta do trabalho de seu pai, psiquiatra nesse hospital. É, assim, um resgate de memórias do autor, que vai falando sobre suas experiências, dores, pensamentos e como foi seu crescimento cerca de pessoas consideradas mentalmente instáveis por ali.


Joachim, como autor, busca trazer apenas o detalhamento simples e puro. Traz seu olhar particular sobre o que acontecia na tal instituição psiquiátrica, sem qualquer tipo de julgamento. São "causos" sobre sua vida, nem sempre lineares ou coesos, que vão se tornando um mosaico narrativo e literário. É como uma colagem de memórias, que vamos vendo em 350 páginas.

No entanto, apesar dessa visão particular de Joachim, participamos de uma espécie de reflexão natural que vai surgindo sobre vida, humanidade, sanidade, loucura e sociedade. Não são pensamentos, ideias ou reflexões que surgem de maneira ativa, com o autor propondo. Elas vêm e vão, conforme Joachim vai contando suas histórias, e as ideias vão enfim se conectando.


Mas, apesar desses pontos positivos, falta alguma coisa na condução de Joachim. Talvez um olhar mais apurado sobre os pacientes, que são raramente descritos e humanizados nas páginas de Quando Finalmente Voltará a Ser Como Nunca Foi. Além disso, apesar do ritmo ser acelerado no último quarto do livro, falta um desfecho de acordo com tudo que foi proposto.


Há, sim, mudanças na forma que Joachim enxerga seu entorno, seus pais, a forma que passou a infância -- ainda que de maneira delicada, o autor coloca isso nas entrelinhas do que vai contando. No entanto, talvez fosse interessante um "choque de realidade" mais intenso por parte de Joachim. Ou, ainda, talvez fosse enfim o momento dele se impor dentro da narrativa da vida.


A obra de Joachim Meyerhoff não tem um enredo propriamente dito, uma história. São navegações na mente do autor. Assim, termino essa resenha com uma recomendação: é preciso estar no momento certo para ler o livro. Não dá para ter receio do que encontra nas páginas, tampouco medo de mergulhar na trama. Aqui, é tudo ou nada. Senão, a experiência se perde.

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