• Matheus Mans

Resenha: 'Quem mandou amar passarinho?' explora amor e frustração


Logo de cara, difícil não sentir certa afeição por Quem Mandou Amar Passarinho?. Escrito por Marília Diaz, ilustrado por Suzana Mehl e publicado pela Editora InVerso, o livro se vale da figura de uma simpática gatinha que sofre no mundo do amor. Tentando encontrar sua alma gêmea, ela acaba enfrentando situações complicadas até chegar à paixão verdadeira: uma andorinha.


Singela e delicada, a história mostra os percalços dessa gatinha e mostrando os diferentes tipos de personalidade que uma pessoa pode encontrar por aí e como é importante se identificar com alguém por conta de seu eu interior e não por aparência física. Por exemplo: um gato era fofo e charmoso, mas entregava ratos mortos pra protagonista -- chamada Andorinha. Foi o fim.


Por isso é tão reconfortante quando a Gata Andorinha se apaixona por um pássaro Andorinha. A autora Marília Diaz sabe como pôr os relacionamentos em perspectiva infantil, sem forçar a barra ou soar exagerada. É carinhosa a forma como os dois se relacionam e, principalmente, é atenta e sagaz a mensagem que o livro passa de que pessoas diferentes podem se encaixar.

No entanto, que pena: todo o trabalho delicado e sensível da autora vai por água abaixo justamente na última página. Como se fosse para expurgar suas próprias frustrações, a autora insere uma conclusão envolvendo frustração, solidão e... remédios. Pois é. Algo totalmente distante do que o público alvo da história, crianças de 5 ou 6 anos, deveriam ler ou saber.


Ainda que as intenções sejam positivas, e é importante ressaltar isso, o livro acaba caindo tremendamente de qualidade apenas por conta dessa conclusão desastrada. Tudo bem, claro: é deveras importante que crianças aprendam a lidar com frustrações e infelicidade. Algo que tem sido deixado de lado nos últimos anos, principalmente por conta da digitalização do cotidiano.


No entanto, não é dessa forma. Não é transformando um livro simpático, e que já andava num limiar temático (afinal, namoro não é exatamente um tema infantil, não é?), em algo depressivo, triste e pra baixo. Podia ter passado a lição de outras dezenas de formas, mais conectadas com a vida moderna. Empoderamento, talvez. Liberdade. Individualidade. Até mesmo independência.


Da forma que ficou, o livro fecha de jeito amargo. Para fazer sentido para as crianças, seria preciso um acompanhamento próximo de um responsável com explicações detalhadas. Afinal, não dá para largar uma conclusão envolvendo remédios, infelicidade e uma possível depressão amorosa sem que isso seja contextualizado. Uma pena. Tinha tudo pra ser um ótimo livro.

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