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  • Matheus Mans

Resenha: 'Uma Mulher no Escuro' é o livro mais banal de Raphael Montes


O escritor Raphael Montes surpreendeu na cena literária com Suicidas, sua estreia literária quando ainda era adolescente. No entanto, a consagração veio com o ótimo Dias Perfeitos, um thriller psicológico que o colocou no alto patamar de bons escritores policiais brasileiros. E agora, depois do elogiado Jantar Secreto, chega o pior livro de Montes: Uma Mulher no Escuro.


Na trama, acompanhamos a história de Victória, uma jovem mulher que sofreu por um grave trauma quando era pequena. Aos moldes de Lugares Escuros, de Gillian Flynn, o livro começa com o assassinato dos pais e do irmão da protagonista. Ela, como que por um milagre, sobrevive, apesar dos inúmeros ferimentos -- tanto físicos quanto psicológicos, obviamente.


A partir daí, anos depois, vemos essa mesma personagem enfrentando os dilemas de enfrentar os traumas do passado e avançar na vida. No entanto, no meio do caminho, coisas acontecem. Primeiramente, ela conhece Georges, um escritor que frequenta assiduamente o café em que Victória trabalha. Depois, o grande plot: o assassino de sua família, aparentemente, retornou.


Com uma escrita muito menos vertiginosa do que seus outros livros, Raphael Montes parece apostar no desenvolvimento psicológico de seus personagens. Com isso, a trama conta com menos momentos realmente impactantes, deixando-a mais lenta do que o normal. Parece um livro mais parado, mais banal. Não há aquela forma contagiante de Montes contar histórias.

No entanto, apesar disso, é difícil desgrudar das páginas -- eu mesmo li em apenas um dia, sem vontade de deixar de lado. E isso é motivado por dois pontos. Primeiramente, ao conhecer a narrativa de Montes, espera-se as reviravoltas fantásticas. Além disso, a tensão que se cria ao redor da protagonista é interessante, colocando o espectador no meio de toda aquela aflição.


Infelizmente, porém, as coisas não se desenrolam como o esperado. Logo de cara, a solução do suspense criado por Montes é óbvia. A sensação é de que o autor escreveu o livro no automático e subestimou seu público. Há apenas uma pequena reviravolta no final, mais inesperada, mas que também não tem o impacto necessário. A sensação é de que o livro iria muito, muito além.


O grande problema, enfim, acaba sendo uma tentativa de subverter a lógica de toda a história, quando uma personagem revela segredos sobre a família de Victória. Foi-se o tempo em que esse tema abordado, tão sério e recheado de gatilhos, poderia ser usado assim, de forma leviana, apenas para encaixar uma reviravolta. É de mau gosto, é ultrapassada, é genérica.


No final, fica a sensação de que Raphael Montes escreve este livro sem qualquer paixão. Tem seus méritos, como a leitura rápida e o bom desenvolvimento psicológico da protagonista. Mas não chega nem perto do que o autor nos entregou em obras passadas, principalmente Suicidas e Dias Perfeitos. Faltou momentos realmente chocantes, falou força. Faltou Raphael Montes.

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