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  • Matheus Mans

Crítica: Cru e urbano, 'Desvio' é uma das melhores leituras de 2020


Vai parecer puxa-saquismo ou alguma coisa do tipo, mas sou só aplausos para a Ponto Edita. A editora, que nasceu e se mantém de forma independente, tem feito um trabalho primoroso no circuito editorial brasileiro com publicações como Uma Mulher Perdida e Ida -- ambos amplamente elogiados aqui. Agora, mais um acerto ao publicar o inédito argentino Desvio.


Escrito por Juan Francisco Moretti, a obra acompanha a jornada de Nicolás, um jovem que enfrenta a vida na Buenos Aires nos idos dos anos 2000. Como se fosse um pesadelo, os dias ruins desse protagonista típico de romances urbanos começam a surgir quando ele entra em uma briga de bar com um skinhead. A partir daí, é só tragédia na vida familiar e amorosa.


Crua, realista e inclemente, a escrita de Moretti aos poucos vai colocando o leitor na mente e nos sentimentos desse protagonista. Como se fosse uma atualização e latinização de O Apanhador no Campo de Centeio com toques da urbanidade cruel de Chuck Palahniuk, Desvio traz uma atmosfera opressiva e que mistura sensações, pensamentos, emoções, pesadelos, dores, risos.

Afinal, Moretti traz uma das histórias mais confusas do ano -- em termos emocionais, não narrativos. Em um mesmo acontecimento na vida de Nicolás, encontrei dor e sofrimento, assim como riso. É uma comédia trágica de costumes, muitas vezes evidenciando o vazio existencial da juventude de outros tempos e que permanece. A confusão sentimental faz parte disso.


Dessa forma, mergulhamos na vida de Nicolás, mas Desvio é muito mais do que isso. É muito mais do que uma leitura passiva sobre um personagem tentando se encontrar. Ao adentrar nessa vida tão estranha e conturbada, também olhamos para nossas gerações, nossos erros, nossos desvios. Juan Francisco Moretti acerta em cheio ao modular sensações e reflexões.


Por fim, vale destacar o trabalho primoroso da Ponto Edita quanto ao trabalho visual e editorial da obra. Não só há uma capa bonita, dura, como há um cuidado dentro do livro. Há bons textos escritos por Thiago Pethit e Luiz Thunderbird, que complementam ou analisam as obras, assim como interessantes imagens e fotos que ajudam a criar a sensação de uma obra interativa.


Enfim, Desvio é um daqueles livros que não deixam o leitor sair impassível após virar a última página. Há provocações, há intensidade e, sobretudo, há boa literatura nessas cerca de 180 páginas. Agora fica a recomendação não só da leitura de Desvio, como também para que todos acompanhem a jornada do argentino Juan Francisco Moretti. É a boa literatura latina.

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