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  • Foto do escritorMatheus Mans

Crítica: ‘O Crime é Meu’ mostra que François Ozon sabe como dirigir bons mistérios


Um dos cineastas mais prolíficos de sua geração, o francês François Ozon é uma máquina de fazer filmes: assim como Woody Allen, tem alcançado com certa tranquilidade a marca de uma produção por ano. Com tanto trabalho, é natural que alguns se destaquem (Dentro da Casa, Swimming Pool, Graças a Deus) enquanto outros ficam à margem (Peter Von Kant, Frantz, O Amante Duplo). O seu novo longa-metragem O Crime é Meu, felizmente, fica no primeiro grupo.


Estreia nos cinemas desta quinta-feira, 6 de julho, o longa-metragem acompanha Madeleine (Nadia Tereszkiewicz), uma atriz jovem, pobre e sem talento que é acusada de assassinar um famoso produtor. A melhor amiga, Pauline (Rebecca Marder), advogada desempregada, a defende no tribunal. O resultado é positivo: ela é absolvida por legítima defesa e, com isso, uma nova vida de fama e sucesso começa ancorada principalmente no crime.


No entanto, logo as coisas nessa Paris de 1930 começam a desandar quando a verdadeira história do crime vem à tona. Como fica o futuro de Madeleine e de Pauline? Qual a saída?


Ozon mostra habilidade, logo de cara, ao emular o cinema da década de 1930, na transição entre o mudo e falado. Dá para sentir a época na tela, mas com uma trama absolutamente moderna em que essas mulheres se unem contra os homens. É quase uma guerra ao masculino, misturando a trama criminal com um humor que por vezes surge involuntário na tela, provocando e instigando o público a tentar entender tudo o que acontece ali na tela.


Afinal, por mais que seja uma trama criminal, O Crime é Meu continua sendo Ozon. E o cineasta não deixa, em momento algum, de trazer os elementos que são caros ao seu cinema: a investigação do privado, da vida íntima, às vezes até mesmo acrescentando um tom fabular. Tudo isso acontece aqui: o francês investiga as dores e necessidades dessas personagens inseridas num mundo em transformação e vivendo os louros do sucesso.


Sucesso esse, é claro, que tem tudo para ser raptado por terceiros – aqui, mais especificamente, uma intensa Isabelle Huppert, no quarto filme lançado no Brasil com a atriz no elenco. Ela é o elemento em cena que insere a fábula: não chega a ter bebês voadores como em Ricky, mas traz um humor interessante à cena, bastante peculiar de Ozon. É uma mistura de gêneros curiosa.


É interessante observar como as relações humanas são construídas aqui, com uma complexidade divertida (ou será que nós que nos divertimos com a complexidade?), indo desde a cobrança do aluguel até a sequência no tribunal. Tudo parece um grande teatro – Ozon, enfim, dá umas cutucadas inclusive no sistema judiciário, transformando um julgamento em uma espécie de peça teatral em que tudo é encenado e artificializado.


O Crime é Meu, assim, é um bom Ozon: inspirado, se divertindo e transformando uma história dos anos 1930 em uma grande peça de teatro para que nós, do outro lado da tela, façamos uma viagem pelo tempo, pelos costumes e por seus personagens excêntricos e deliciosos.

 

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