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  • Matheus Mans

'É um divisor de águas', diz Caê Guimarães sobre 'Encontro Você no Oitavo Round'


Outro dia, conforme contamos aqui no 'Esquina', levamos uma pancada. Uma pancada literária. Foi isso que nos proporcionou o bom livro Encontro Você no Oitavo Round, romance de estreia de Caê Guimarães e vencedor do prêmio SESC de literatura de 2020, na categoria romance. É um livro diferente, muito metafórico e sensorial, que nos coloca na mente de um escritor/pugilista.


E para esse mergulho, conhecemos melhor a vida de Cristiano Machado Amoroso, um lutador de boxe profissional — e que também é escritor — que está enfrentando a decadência da profissão. Afinal, em um momento de virada da carreira, começa a participar de lutas clandestinas quase sem regras, aceita dinheiro em troca de derrotas e coisas do tipo. É o fim da linha para Cristiano.


"Escrever é risco. Boxear também é. Praticar ambas atividades é como deslizar nas boras afiadas do abismo. Escrever e lutar exigem enormes doses de autodomínio e entrega", diz Caê em entrevista ao Esquina. "São flertes constantes com a queda, a sensação de derrota ou incompletude. E também com a prestidigitação, como é no jogo do boxe, um truque de mágica".


A seguir, confira nossa conversa completa com Caê. E clique AQUI para conferir a resenha.


Esquina da Cultura: Antes de tudo, conte um pouquinho sobre ‘Encontro Você no Oitavo Round’. Como foi o processo de escrita? De onde veio a ideia?

Caê Guimarães: Tudo começou com o zumbido retratado no primeiro parágrafo. No meu caso, um zumbido metafórico. O nome que dei a tudo que sentia em um momento bastante conturbado da minha vida, há alguns anos. As primeiras linhas dessa narrativa surgiram da necessidade imperiosa de forjar aquele tempo. Coincidentemente, foi o período em que mais me dediquei ao pugilismo, treinava diariamente, sempre como amador. Uni as duas coisas - a metáfora do caos pessoal e a prática do boxe - naquilo que inicialmente acreditei ser um conto. Escrevi as primeiras páginas, 10 ou 12, e deixei o material decantando. Quando voltei a ele, semanas depois, segui escrevendo mais 20, 30 páginas. A narrativa que construía me enredou.


Eu tinha duas coisas em mente. Uma, a certeza de ser este o tema a abordar. A segunda consolida a primeira, o entendimento das tremendas cargas - dramática e social - contidas no pugilismo. Mais do que as outras lutas, ou qualquer atividade física em geral, o boxe é o lugar de fala e afirmação dos excluídos. São raríssimos os lutadores – desde os mais modestos até os campeões mundiais ou bem ranqueados – oriundos da classe média e alta. Os quatro brasileiros campeões mundiais (Éder Jofre, Manoel Oliveira, Acelino “Popó” Freitas e Waldemir “Sertão” Pereira) se enquadram no caso, e os medalhistas olímpicos (Servílio de Oliveira, Yamaguchi e Esquiva Falcão, Adriana Araújo e Robson Conceição) também. Entre os estrangeiros passa o mesmo, os grandes nomes do pugilismo são negros - ainda que americanos ou ingleses, caribenhos, sul-americanos, filipinos. Soma-se a isso o fato de ser uma atividade perigosa, uma das mais extenuantes física e mentalmente. Algo que pode causar danos permanentes nos seus praticantes profissionais. Ou até mesmo matá-los.


Apesar de ser uma narrativa curta, escrevi Encontro Você no Oitavo Round ao longo de alguns anos. Neste período, lancei meu livro mais recende de poesia (Vácuo - Editora Cousa/2014), relancei meu primeiro livro, também de poesia (Por baixo da pele fria – Editora Cousa/2017) em uma edição comemorativa de 20 anos. Este livro, lançado em 1997 por Massao Ohno, e teve uma versão bilíngue português/catalão, lançada na Catalunha como Per sota de la pell freda (Coubert Edicions/2013, trad. Joana Castells Savall). Em outros momentos, afazeres profissionais do jornalismo e da publicidade me afastaram do meu primeiro romance. Mas ele sempre esteve presente no meu cotidiano, mesmo em silêncio. Construí-lo foi um processo interessante, tenho outras três versões não terminadas. Em uma delas, a personagem feminina, Esther Miller, não era jornalista, mas dona do restaurante onde o narrador, Cristiano Machado Amoroso, faz suas refeições. Em outra, trabalhei com o fluxo de consciência na narrativa, não há diálogos nem divisão em capítulos. Mas só consegui finaliza-lo quando encontrei a voz ativa dessa mulher. Não queria construir uma narrativa ambientada em uma cena tão viril e bruta com uma personagem feminina passiva ou meramente alegórica. Ao encontrá-la, achei o caminho pro fim dessa luta.

Esquina: E como ele se encaixa em sua carreira? Afinal, você já publicou livros de poesias, crônicas e contos, mas este é seu primeiro romance.

Caê: A ideia de um romance sempre me rondou. Tenho outro, feito na primeira década do século XXI. Mas não gostei do resultado final. Pouquíssimas pessoas leram e o destino dele foi a gaveta, onde está trancado e lá ficará. Eu já vinha ensaiando temas, possibilidades narrativas e anotando ideias há bastante tempo. Mas, como disse na resposta anterior, a poesia me ocupava tempo e esforço. Assim como as funções de jornalista, redator e roteirista, oras freelancer, oras fixo.


O Encontro Você no Oitavo Round é um divisor de águas, claro, por ter vencido o Prêmio Sesc de Literatura 2020. Isso abre uma avenida muito capilarizada. Cabe a cada autor vencedor do prêmio caminhar por ela a partir daí. Encurtar distâncias e estabelecer novas sinapses é o grande barato do prêmio. Mas, ainda que não fosse o vencedor entre tantos inscritos de todo país, eu buscaria publica-lo. Como vinha publicando minha poesia, por pequenas grandes (e valentes) editoras. E seguiria escrevendo, como faço neste momento da minha vida com um projeto novo em construção. Então, há um peso duplo, ser meu primeiro romance, ainda que tenha estreado como poeta publicado em 1997, e ser uma estreia agraciada com um prêmio tão disputado, com quase 700 concorrentes.

Esquina: O livro trata de um tema que, a meu ver, é bastante deixado de lado na produção cultural brasileira: o boxe. Como foi, pra você, entrar nesse universo?

Caê: O universo do pugilismo e das lutas em geral me é bastante familiar. Meu avô paterno, Félix, praticou boxe na juventude no Rio de Janeiro nos anos 50. Nos anos 70 e 80 ele acordava a mim e a meu irmão para vermos as grandes lutas que eram invariavelmente transmitidas nas madrugadas das TV’s abertas, as únicas então existentes. E as comentava. Crescemos entendo os estilos de boxear, as regras, toda magia e beleza por baixo da superfície aguerrida e violenta. Meu pai lutou jiu-jitsu quando jovem, também no Rio. E eu e meu irmão treinamos tae-kown-do na infância e lutamos judô competitivamente por muitos anos, já vivendo no Espírito Santo. Aos 30 comecei a praticar pugilismo e me encantei. Não apenas pela luta em si, mas também por seus grandes personagens, muitas vezes envolvidos com o submundo de apostas e máfia, como era comum na cena americana pré e pós II Guerra, vide Sonny Liston, ou lutadores que se envolveram na luta contra o racismo e contra guerras, como Muhammad Ali fez ao se recusar a combater no Vietnã. E, ainda, aqueles longe dos holofotes, que lutaram contra todas as adversidades da vida, como o capixaba Touro Moreno, pais dos medalhistas olímpicos Yamaguchi e Esquiva Falcão. Um homem cuja história de vida é uma narrativa e tanto.


Realmente o boxe foi deixado de lado na produção cultural brasileira. Poucos filmes nacionais abordaram o tema, salvo engano o mais recente é 10 Segundos para Vencer, do José Alvarenga Jr., a cinebiografia do Éder Jofre. Na literatura, pelo que pesquisei não há um romance ou livro de contos brasileiro ambientado neste cenário. O contrário acontece nos Estados Unidos, na Europa e na Argentina, países natais de escritores e cineastas que desenvolveram narrativas ambientadas no pugilismo, vide Cortázar, Conan Doyle, Jack London e Norman Mailer na literatura, Martin Scorsese e Clint Eastwood no cinema, e ainda Bob Dylan na música. Mas a escolha do tema não foi premeditada, na verdade, percebi a ausência do pugilismo em narrativas brasileiras com o livro já bastante adiantado.

Esquina: Além disso, o livro faz uma brincadeira constante entre a carreira de um lutador de boxe com a jornada do escritor. Você sempre se sentiu em um ringue enquanto escreve? De onde veio essa sensação?

Caê: Escrever é risco. Boxear também é. Praticar ambas atividades é como deslizar nas boras afiadas do abismo. Escrever e lutar exigem enormes doses de autodomínio e entrega. São flertes constantes com a queda, a sensação de derrota ou incompletude. E também com a prestidigitação, como é no jogo do boxe, um truque de mágica, onde se finge estar onde não se está. Vitória e derrota podem passar por detalhes, frações de segundo. Ambas requerem de quem as pratica um estilo próprio, uma forma de execução pessoal e intransferível. E o emprego de sentidos, memória, estratégia. Processos de construção, que obviamente podem ser encurtados com um nocaute rápido ou um texto que afugente o leitor.


As proximidades passam também por referências, desde “a luta vã com as palavras” drummondiana, até o Cortázar que se refere à escrita como “uma luta contínua com a palavra. Um combate que tem algo de aliança secreta”. Para mim foi natural, desde sempre, enxergar as semelhanças entre escrita e luta, no caso, o pugilismo, a mais literária das modalidades de combate. Não voltarei ao tema nos meus próximos projetos, mas seguirei escrevendo com esse irmanamento atado a mim.

Esquina: E quais são seus projetos vindouros? O que podemos esperar por aí?

Caê: Já vinha rabiscando dois novos projetos, mas um deles, Os Amorosos, sem impôs. Aborda a imigração espanhola para a América do Sul, a emigração dentro do continente e relações inter-raciais, tudo isso perpassado pelas frágeis e efêmeras democracias de Espanha, Argentina e Brasil ao longo do século XX. É uma conexão direta com a parte de minhas origens com a qual tive mais contato. Algo que me alimentou a vida inteira, as narrativas contadas por minha bisavó, Angustias, espanhola falecida em 1980, minha avó, Carmen, argentina falecida em 1985, e por minha mãe, Vitória, brasileira falecida no final de 2020. As três foram meus primeiros livros, as primeiras narradoras a povoar meu imaginário. Estou começando a trabalhar essas memórias como matéria prima a serviço da invenção.

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