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  • Matheus Mans

Resenha: 'Fascismo à Brasileira' olha o passado para refletir sobre presente e futuro


Confesso que estou um tanto quanto obcecado com livros que analisam a atual tempestade política que estamos vivendo. Só para falar de dois, recentemente mergulhei na leitura de Diário da Catástrofe Brasileira e A Filosofia Explica Bolsonaro. O primeiro é excelente. O segundo, um fiasco. Uma bobagem. E assim, na minha busca contínua por uma explicação sobre o que estamos vivendo, agora vou de encontro ao livro Fascismo à Brasileira, novo título do jornalista Pedro Doria, especialista em tecnologia e editor do Meio.


Aqui, no entanto, Doria não faz uma análise crua e direta do governo Bolsonaro, da extrema-direita ou do levante fascista que estamos vivendo. Nada disso. Fascismo à Brasileira se propõe a ser um livro de História, no qual somos convidados a conhecer, refletir e analisar o Integralismo. Para quem não sabe, esse movimento da primeira metade do século XX acometeu o Brasil com uma proposta inspirada no que estava acontecendo lá fora, principalmente Alemanha e Itália: unificar o País em um só lema, uma só bandeira. Fascismo, enfim.


Dessa forma, ao longo de mais de 260 páginas, Doria fala sobre as origens de Plínio Salgado — o líder desse movimento e que desejava ser uma espécie de "Mussolini brasileiro" — e de como o Integralismo se movimentou e se desenvolveu a partir dessas ideias ultranacionalistas de seu líder. É, enfim, um retrato sobre um período da História do Brasil, contado com primazia pela ótica desse jornalista. Ainda que um pouco confuso e prolixo demais em alguns momentos, é um livro leve, de escrita solta e que permite o mergulho.

O principal ponto positivo de Fascismo à Brasileira, porém, não está na qualidade da escrita de Doria, nem no bom material histórico — afinal, vamos combinar, há livros e pesquisas de historiadores que vão além em suas propostas e material de estudo. Aqui, o grande ponto é o timing de publicação do livro. Pedro Doria, habilmente, fala sobre o passado para olharmos para o presente e, quiçá, o futuro. Tudo bem: a História não é uma roda, que vai e que volta. Mas é impossível não fazer paralelos e ver erros sendo cometidos de novo.


Doria, dessa maneira, dá material ao leitor para mergulhar no entendimento do que é este movimento e, indo além, compreender sua sobrevida até os dias de hoje. E não apenas na figura de Bolsonaro. Mas também no retorno dos camisas verdes, como o criminoso que ateou fogo na sede do Porta dos Fundos ou, ainda, um encontro que aconteceu no centro de São Paulo para celebrar Salgado, o Sigma, o "Anauê" e outros símbolos que acabaram se tornando os pilares de sustentação desse movimento que fez tanto barulho nos anos 1930.


Uma pena, porém, o capítulo de conclusão de Fascismo à Brasileira ser tão anêmico. Depois de um livro recheado de informação, parece que Doria não teve força ou coragem de ir além na análise comparativa entre o governo de Jair Bolsonaro, o integralismo e o fascismo -- aliás, recomendo esse vídeo de Marco Antônio Villa sobre o tema. Se Doria tivesse ido um pouco além em sua conclusão, com mais opinião e menos necessidade de ficar em cima do muro, talvez Fascismo à Brasileira fosse ainda mais memorável e palatável.


Da maneira que ficou, ainda assim, funciona. Entendemos melhor esse movimento do passado, compreendemos nossa formação a partir de fatos e detalhes históricos e, por fim, podemos refletir melhor sobre o que nos formou e o que fez com que chegássemos aqui. Poderia ter um pouco mais de força? Claro. Pedro Doria poderia ter ido um pouco além na força comparativa de passado, presente e futuro? Com certeza. Mas, no final das contas, devemos celebrara que tanto conteúdo bom está sendo produzido por aí. Adiante.

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