• Matheus Mans

Resenha: 'O Livro de Jô' ganha ainda mais força no segundo volume


Jô Soares é uma caixa de histórias. Aos 81 anos, o humorista, apresentador de televisão, escritor, dramaturgo, diretor teatral, ator e músico brasileiro (ufa!) já viveu muitas vidas e tem muito para contar. E agora, parte de suas memórias estão contidas nas excelentes autobiografias O Livro de Jô, que são divididas em dois volumes pela Companhia das Letras.


No primeiro volume, Jô fez um passeio na sua formação como intelectual e apresentou causos de começo de carreira -- ainda que haja algumas viagens para momentos mais próximos do presente. Agora, em O Livro de Jô: Volume II, o artista se aproxima de seus 30 anos mais recentes e conta histórias dos talk shows, casamentos, morte do filho, ida ao SBT, e por aí vai.


Dessa forma, com mais atualidade e ainda mais histórias para contar, a autobiografia de Jô -- que é escrita, na verdade, pelo editor Matinas Suzuki Jr. -- ganha ainda mais força, mas sem perder o charme de uma conversa despretensiosa com o intelectual. A sensação é de que você, leitor, está batendo um papo franco com Jô na biblioteca de sua casa, sem pressa alguma.

Quando passei a ler os Evangelhos, não pude deixar de observá-los também com a minha visão de mundo de comediante. De quem presta atenção em detalhes que se transformam em grandes questões.

Jô Soares sobre piadas com religião


Algumas pessoas podem se incomodar com as idas e vindas temporais, assim como a constante autobajulação -- que Jô, em momento algum, esconde ou finge que não existe. E, de fato, são duas coisas que podem atravancar levemente a leitura. No entanto, o desejo de saber mais sobre as histórias e ouvir mais "causos" de Jô ganham essa briga e levam a melhor.


Interessante, também, notar como algumas histórias do Gordo conversam com os dias atuais. Há um capítulo quase que inteiramente dedicado a religião que fala francamente com o atentado à liberdade de expressão contra o Porta dos Fundos. Jô parece ter telegrafado esse fato.


Assim, quem gostou do primeiro volume de histórias, vai gostar desta nova coleção de "causos". Jô é franco, Matinas tem uma escrita saborosa e temas polêmicos não são evitados -- nem a briga com Boni, por exemplo, na época da ida do apresentador ao SBT. E surpreendente também é o balanço e algumas histórias de bastidores das entrevistas. Poderia ter muito mais disso.


No final, fica aquela sensação boa, um sorriso no rosto, de ter aproveitado essas quase 800 páginas de leitura com boas histórias, boa conversa e um bom aprendizado que fica. Você até pode não simpatizar com Jô Soares. Mas não pode negar: ele é um intelectual com muitas histórias e que ajudarão, no futuro, a fazer com que as pessoas entendam a cultura brasileira.

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